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Investimento das multinacionais brasileiras no exterior bate novo recorde

A participação de empresas brasileiras no mercado externo, processo também conhecido como internacionalização, bateu recorde no primeiro semestre deste ano, com negócios que somaram US$ 12 bilhões.

Esse é o melhor resultado para um semestre desde que o Banco Central começou a fazer o levantamento, em 1968.

No conceito de participação, a autoridade monetária considera a compra total ou parcial de uma empresa no exterior, inclusive por meio de uma maior participação acionária.

O resultado reflete uma forte recuperação em relação ao ano passado, quando os negócios somaram apenas US$ 1,1 bilhão, em função principalmente da crise econômica internacional.

Causas

Para especialistas, a retomada dos investimentos brasileiros no exterior é consequência, dentre outros fatores, da desvalorização de empresas estrangeiras, que ainda não se recuperaram da crise.

“Empresas americanas e europeias ainda não recuperaram seu valor de mercado. E como as brasileiras estão com dinheiro em caixa, puderam avançar no exterior”, diz o professor Jase Ramsey, da Fundação Dom Cabral.

Outra razão, segundo ele, está em uma “vantagem artificial”: a valorização do real frente ao dólar, que dá maior poder de compra às empresas brasileiras.

“Sem dúvida, o artíficio cambial ajuda. Mas ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que as companhias brasileiras conseguiram passar pela crise com dinheiro em caixa. É mérito delas também, que saíram da turbulência relativamente mais fortes”, diz Ramsey.

Na avaliação do professor de comércio internacional da Fundação Instituto de Administração (FIA), José Roberto Araújo Cunha, a internacionalização das empresas brasileiras, além de ser uma questão de “sobrevivência” em certos setores, também traz “benefícios” para a economia interna.

“Aquele pensamento de que estaríamos exportando empregos é parte do passado. As empresas que vão para o exterior ganham competitividade e, assim, conseguem praticar preços interessantes para o consumidor brasileiro”, diz. Oportunidade A lógica é a da “perda de oportunidade”.

Ou seja, se a empresa brasileira não entrar no mercado americano, por exemplo, companhias de outras nacionalidades – como chinesas e coreanas – vão ocupar esse espaço.

“E quando isso acontece, elas ganham escala e podem praticar preços menores. Já as brasileiras perdem espaço lá fora e ainda correm o risco de ter seu produto com competidores mais baratos inclusive no mercado doméstico”, diz. Cunha cita o setor de autopeças brasileiro como um exemplo de setor que já foi forte, mas que deixou de se internacionalizar e acabou perdendo competitividade.

Uma das empresas brasileiras que mais se internacionalizaram nos últimos anos, a Gerdau também está entre aquelas que aproveiram para fazer negócios no semestre, com um investimento de US$ 1,6 bilhão na Ameristeel, baseada nos Estados Unidos, onde já era majoritária.

O professor da FIA diz que as empresas buscam espaço em outros mercados não apenas para ampliar seus lucros, mas também para ter acesso direto ao consumor – especialmente quando existem barreiras comerciais.

“Vários países impõem barreiras tarifárias ou não-tarifárias à importação de certos produtos. Muitas vezes, as empresas estrangeiras não conseguem exportar e acabam abrindo unidades nesses mercados”, diz. “As empresas brasileiras estão fazendo o que as asiáticas fizeram há 30 anos”, diz.

Fonte:  Agência BBC – 27/07/2010

Natura planeja a ampliação de suas atividades fora do país

A Natura quer ampliar sua atuação fora do país e prevê o dobro da participação das operações internacionais no faturamento da empresa em cinco anos. A projeção foi feita ontem pelo vice-presidente de Finanças e Jurídico da Natura, Roberto Pedote, na ocasião da divulgação dos resultados do terceiro trimestre.

No período, as operações internacionais da fabricante de cosméticos resultaram numa receita líquida de R$ 75,8 milhões, um avanço de 43,9% sobre o mesmo período do ano passado, representando 7,18% da receita total, que somou R$ 1,054 bilhão.

De janeiro a setembro, essa participação das vendas no exterior ficou em 7,2%, totalizando R$ 211,4 milhões e um crescimento de 50,8%. Em comparação aos nove primeiros meses de 2008, quando a representatividade internacional era de 5,7%, o resultado mostrou crescimento, “evoluindo de acordo com a expectativa nestas operações”, afirmou a empresa em nota.

A estratégia de internacionalização da empresa é parte de uma nova etapa de planejamento, cujo foco inicial está na América Latina. Neste sentido, a Natura se volta para os países considerados “em consolidação” – Chile, Argentina e Peru – onde registrou R$ 1,7 milhão de lucro líquido e margem Lajida de 7,5% no terceiro trimestre. No mesmo período do ano passado, acumulou prejuízo de R$ 3,4 milhões, e margem Lajida negativa de 2,1%. “Queremos mais ganhos de escala nessas operações”, disse Pedote.

Já na Colômbia e México, países considerados “operações em implantação”, foi registrado um prejuízo líquido de R$ 8,3 milhões e margem Lajida de 40,7% negativos, ante a perda de R$ 9,3 milhões no ano passado e margem Lajida negativa de 82,2%. Esses resultados, segundo o executivo, incluem as operações da Venezuela, encerradas em junho.

Fonte: Jornal Valor Econômico (23/10/2009)

Modelos de crescimento

NÃO HÁ COMO negar que o modelo chinês de crescimento econômico é diferente de tudo o que vinha sendo aplicado por outros países e que ele dá resultado.

No Brasil, prestar atenção à experiência chinesa não significa esquecer as referências europeia e americana que nos nortearam até a década de 90. Também não implica ignorar duas questões graves do modelo chinês como projeto de desenvolvimento: o regime político fechado e o minúsculo impacto em termos de justiça social.

Mas se nestes aspectos discordo do modelo, reconheço que vale a pena olhar para as suas virtudes. Uma delas é a forte parceria entre Estado e empresas, uma equação virtuosa na qual o governo é forte e as empresas também são fortes.

Outro ponto positivo é a construção econômica voltada para fora. As economias que se voltam para dentro não evoluem. O crescimento e o desenvolvimento só acontecem quando são gerados excedentes para exportação e as empresas se internacionalizam, com instalações e produção nos países onde estão os seus clientes.

E temos a visão de longo prazo. O fenômeno que estamos assistindo não é fruto de planejamento recente.
Quem quer chegar ao topo precisa olhar pelo menos 25 anos à frente. A China, no final dos anos 70, definiu como projeto crescer 10% ao ano durante 50 anos.

Só à guisa de comparação: há 25 anos, o Brasil exportava tanto quanto a China. E nós vendíamos mais do que eles para os Estados Unidos. Hoje, ainda somos 1% do comércio mundial, como éramos naquela época, mas a China já alcança quase 10%.

Vale também destacar no modelo chinês: carga fiscal e regulatória baixas; construção de infraestrutura de primeira classe pela combinação de gastos privados e estatais; e atração do investimento estrangeiro não como poupança externa, mas para adquirir tecnologia e para abrir novos mercados.

Há quem procure desmerecer a China tratando-a como fabricante de produtos de má qualidade, imitadora não autorizada de marcas ocidentais e exploradora de mão de obra barata. Há alguma verdade nessas acusações, embora isso não seja privilégio da China.

Inquestionável é que o modelo chinês, do ponto de vista econômico, é o mais ajustado ao mundo contemporâneo.
O Brasil também pode fomentar a cooperação entre o Estado e a iniciativa privada, consolidar uma economia exportadora e planejar a caminhada rumo aonde queremos chegar em 2040. Mas para tanto é preciso investir em educação, desenvolvimento tecnológico, infraestrutura e na criação de empresas campeãs mundiais em seus setores.


Fonte: EMÍLIO ODEBRECHT - Folha de São Paulo (25/10/2009)

Panorama do processo de internacionalização da indústria de TI brasileira

Na década de 1990, com o fim da reserva de informática, o Governo Federal criou o SOFTEX 2000 para apoiar a internacionalização da indústria de software brasileira. O Programa concentrou-se bastante no apoio a empresas com produtos que tivessem potencial de venda nos países desenvolvidos. O programa tinha cinco metas principais, sendo que aquela de maior visibilidade era a obtenção de 1% do mercado mundial de software. Nas quatro outras metas que não a participação de mercado, o programa foi bem-sucedido, mas não foi alcançado o aumento vigoroso das exportações brasileiras de software. No início dos anos 2000, o programa foi renomeado e passou a ter um foco na excelência do software brasileiro e não mais na sua exportação.

Em 1997, o Governo Federal cria a APEX. Em 2005, a APEX cria o PSI-SW como uma frente setorial para congregar as empresas de software e impulsionar o processo de exportação dos produtos e serviços destas empresas. Esse programa é conduzido em parceria com o SOFTEX que atua como um ente captador no Brasil.

Em 2003, a BRASSCOM surgiu como uma iniciativa apoiada pelo Governo Federal, mas partindo da reunião das maiores empresas produtoras de software no Brasil com vistas a exportação. Hoje esta entidade representa 70% do PIB de TI no Brasil. Ela vem preenchendo a lacuna deixada pela Sociedade SOFTEX como ente de impulsão no processo de internacionalização das empresas de software brasileiras. A grande diferença é que tal iniciativa parte do setor privado, tendo apoio do governo e um plano diretor estruturado por uma importante consultoria internacional de estratégia, AT Kearney.

Indiretamente, a FINEP também tem apoiado o processo de internacionalização das empresas brasileiras de TI com a criação dos fundos Inova Brasil e Verde-Amarelo que tem por objetivo incentivar, através de empréstimos e recursos a fundo perdido, as empresas a investirem no desenvolvimento de produtos com competitividade internacional.

O processo de internacionalização de muitas das empresas começou na década de 1990. Dentre as empresas analisadas, a Datasul tinha o processo mais antigo deles que datava de 1992, época em que o país passava por um ciclo de liberalização de sua economia, vivia o fim da reserva de mercado da informática, a abertura do país para o mundo e os avanços tecnológicos das economias mais desenvolvidas, principalmente dos EUA e do Japão.

Este primeiro ciclo de internacionalização das empresas de software é marcado por uma falta de estratégia clara, feito muitas vezes de maneira errática, utilizado pelas empresas como forma de experimentar o processo de exportação ou atender a clientes estrangeiros. Iniciam esse ciclo na década de 1990: Datasul, DBA, MATERA, CI&T, Stefanini, Modulo, Totvs e Politec. Dentre estas empresas somente DBA, Stefanini e Totvs persistiram no processo contínuo de evolução e aprendizado ao longo das décadas de 1990 e 2000. As outras empresas retiraram-se desse processo ou reduziram bastante suas atividades no exterior para um período de recapitalização e análise das lições aprendidas nessa jornada estrangeira.

Nos 2000, Datasul, MATERA, CI&T, Modulo e Politec retomam suas atividades de internacionalização com mais recursos e experiência adquiridos no mercado nacional. Ao mesmo tempo, ActMinds, BRQ, CPM Braxis, Comperantime e Spring Wireless dão seus primeiros passos na atividade internacional. Dentre elas, somente a Comperantime utiliza o processo como uma forma de teste nos mercados estrangeiros. A BRQ assume as operações internacionais como uma prioridade e busca recursos do BNDES para impulsionar esta estratégia.

O consórcio ActMinds é formado com empresas já maduras da região de Campinas, sendo comandadas por um antigo diretor do SOFTEX que possui vasta experiência no processo de exportação de software, propiciando às empresas do consórcio a oportunidade de iniciar suas atividades exteriores em um patamar superior. A CPM começa sua atuação internacional em 2004, em 2006 ocorre a fusão com a Braxis que já era resultado da fusão de outras três importantes empresas do mercado brasileiro. A empresa recebe um aporte de R$ 170 milhões para alavancar seu processo de internacionalização. Por fim, a Spring Wireless, retardatária do processo, consegue avançar a passos largos e se tornar uma das empresas mais internacionalizadas deste estudo. A Spring Wireless inicia sua internacionalização em 2006 pela Chile para testar o processo e, logo, decide que é necessário capitalizar para impulsionar esta iniciativa.

 Ao analisar os mercados escolhidos pelas empresas para sua atuação verificam-se alguns padrões: 

- Empresas que possuem produtos muito especializados em características de negócio da economia brasileira (Totvs) buscam sua expansão internacionalização pelos países latino-americanos e da comunidade lusófona. Isto decorre da percepção de que estas empresas possuem mais competitividade nos mercados emergentes dado que o nível de maturidade das economias destes países geralmente é inferior a aquele verificado na economia brasileira. 

- Empresas que possuem algum grau de inovação como aspecto de diferenciação tais como CI&T, Comperantime, Modulo e Spring Wireless. Estas empresas apresentam dois caminhos identificados neste estudo: 

  • Iniciam suas operações internacionais por países latino-americanos para testar o processo de internacionalização. A partir deste primeiro teste, elas podem continuar a expansão por estes países ou ir para mercados mais maduros, uma vez que verificaram a sustentabilidade do processo de internacionalização. Enquadram-se nesta categoria: Comperantime e Spring Wireless. 
  • Vão diretamente para os mercados maiores e mais maduros de TI, pois conseguem se posicionar em um segmento premium e não concorrer por preços naqueles mercados. Pode existir a busca de tecnologia nestes mercados mais maduros para aumentar a vantagem competitiva da empresa. Podem aqui ser categorizadas: CI&T e Modulo. 

- Empresas de serviços offshore seguem duas trajetórias distintas: 

  • Iniciam sua atuação pelos EUA ou Europa devido aos tamanhos destes mercados, seguindo para outros países da Europa ou Japão. São exemplos desta categoria: BRQ, MATERA, CPM Braxis e Politec. 
  • Iniciam sua atuação pelos países latino-americanos, de certa forma, obedecendo ao critério de expansão crescente na distância psíquica dos países-alvo selecionados. O representante desta categoria é a Stefanini IT Solutions. 

Quando se avaliam as razões que levaram estas empresas a buscarem o caminho de internacionalização encontra-se a figura de um empreendedor visionário que sempre ou desde cedo na história da empresa teve uma grande vontade de levar sua organização a vender produtos ou serviços nos mercados internacionais, ou seja, na grande maioria dos casos investigados as empresas ainda teriam muita demanda para suas ofertas no Brasil. Depreende-se assim que este processo não decorre de uma estratégia claramente definida, mas sim de uma estratégia emergente das oportunidades da empresa, do mercado internacional e da vontade do empreendedor ou executivo principal da organização. São exemplos: BRQ, CI&T, Comperantime, Modulo, Spring Wireless e Stefanini IT Solutions.  

Apesar disso, constata-se também que o maior grau de abertura da economia brasileira serviu como elemento catalisador deste processo. Algumas delas aproveitaram a existência de um maior número de organizações multinacionais no país para desenvolverem suas atuações nos países de origem das matrizes desses clientes (CI&T, Comperantime, MATERA e Spring Wireless) navegando pela rede de relacionamentos desenvolvida com a operação brasileira destas empresas. Outras empresas foram para o mercado exterior como forma de buscar novas competências, concorrer em um mercado mais sofisticado tecnologicamente ou proteger-se de concorrentes estrangeiros (Modulo, Politec e Stefanini).  

As principais barreiras encontradas no processo de internacionalização pela maioria das empresas são: 

  • Ausência ou imagem pouco relevante do software brasileiro nos mercados de TI dos países desenvolvidos; 
  • Pequena disponibilidade de linhas de financiamento para estimular a internacionalização, fusões e aquisições de empresas brasileiras; 
  • Estrutura tributária com alta taxação incidente na mão-de-obra qualificada utilizada por essas empresas; 
  • Baixa quantidade de acordos estabelecidos entre o Brasil e outros países que evitem a bi-tributação; 
  • Taxa cambial pouco competitiva nos últimos com a apreciação da moeda brasileira tornando mais caros os produtos e serviços vendidos pelas empresas nacionais nos mercados exteriores; 
  • Disponibilidade restrita de mão-de-obra fluente em línguas estrangeiras.

Para mitigar a ausência da imagem de produtor de tecnologia para o Brasil, inicialmente a APEX e mais adiante a BRASSCOM tomaram medidas com os formadores de opinião internacionais para constituir uma imagem de país que possui empresas detentoras de tecnologias avançadas e com capacidade de atender a demanda como destino de offshore alternativo à Índia. A APEX criou uma marca denominada “Brazil IT”, algo que lembra o conceito da Nike com seu “Just do it”. Se fossemos traduzir essa marca teríamos algo aproximado a “abrasileire-se”. Além de escolher os congressos mais adequados para marcar a participação brasileira, foram feitos trabalhos de conscientização e divulgação do Brasil junto a consultorias tais como Gartner Group, Forrester e McKinsey, as principais formadoras de opinião dos CIOs das grandes empresas norte-americanas.

Um grande desafio para a internacionalização da indústria de software brasileiro é o seu financiamento. No final da década de 1990, o BNDES criou o Prosoft como uma linha de crédito que não solicita garantias reais para financiar as empresas desse setor. Mas o programa parece estar ganhando velocidade de uso somente ao final dos anos 2000 em que os volumes disponíveis para empréstimo alcançaram o patamar de R$ 2 bilhões. O BNDES Participações também tem atuado mais recentemente no sentido de comprar participações nessas empresas para capitalizá-las de forma que possam financiar seus processos de internacionalização. Recentemente, o BNDES tem disponibilizado recursos para promover a criação de grandes empresas brasileiros no setor de TI e promover sua internacionalização. Ainda assim, esses recursos são escassos e concentrados em poucas empresas.

O setor de TI é altamente demandante de mão-de-obra especializada. A CLT, legislação brasileira que regulamenta o trabalho, implica em um aumento relevante nos custos da mão-de-obra através dos impostos incidentes em folha de pagamento e adicionais de salários (INSS, FGTS, férias, 13º salário, licença-maternidade, entre outros). Além disso, há todos os outros impostos incidentes sobre o faturamento (PIS e Cofins), os lucros: bruto e líquido (IRPJ e CSLL). A redução dessa carga tributária teria um impacto importante na competitividade das empresas brasileiras. Recentemente, o Governo Federal promoveu uma desoneração desta cadeia com redução dos impostos sobre a folha de pagamentos para as empresas que exportem software acima de um determinado patamar através de seu Plano de Desenvolvimento Produtivo.

A tributação é um componente que encarece o preço final das empresas em seu processo de internacionalização. Nesse contexto, a bitributação, ou seja, a incidência de impostos sobre o lucro líquido tanto no país em que instalam suas filiais como no Brasil. Ao contrário de outros países, como Espanha e Japão, o Brasil não oferece nenhum incentivo fiscal à internacionalização de suas empresas. Para minimizar o impacto de sua pesada carga tributária, o Brasil possui alguns tratados internacionais para evitar a bitributação. A lista atual da Receita Federal conta com 27 países, tais como Argentina, Chile, Equador e México. Mas desta lista não constam os EUA, o principal destino de exportações offshore das empresas brasileiras de TI. Ainda nestes países com os quais existem acordos que evitam a bitributação, sua aplicação não é simples, fator de dificuldade adicional para as empresas que queiram utilizar tais prerrogativas quando aplicáveis.

Outro desafio com implicações para a formação dos custos da indústria de software brasileira é a recente apreciação da moeda brasileira em decorrência da grande liquidez disponível em dólares para a economia nacional provenientes do ciclo internacional de valorização das commodities em âmbito mundial, principalmente dos alimentos. Em 2007, o Brasil alcançou uma situação nova em sua história: tornou-se um credor líquido em dólares, ou seja, o país possui em reservas cambiais que superam seu estoque de dívida externa. Essa grande abundância de moeda estrangeira faz com que o real ficasse bastante valorizado e encarecessem os preços de venda dos produtos e serviços das empresas exportadoras brasileiras. Nesse aspecto nada tem sido feito pelo Governo para atenuar tal situação.

Por fim, a disponibilidade de mão-de-obra treinada nas ferramentas técnicas necessárias para atender às demandas externas e, principalmente, fluentes nas línguas estrangeiras dos principais mercados-alvo para os produtos brasileiros tais como inglês, espanhol, japonês, alemão e francês tem se reduzido ao longo do tempo. Um fato curioso foi detectado neste trabalho: as empresas da região de Campinas não possuem esta restrição quando se trata da fluência na língua inglesa. Uma possível explicação para este fator diferencial é que há um grande contingente das melhores universidades brasileiras localizadas naquela região: UFSCAR, UNICAMP, USP e PUCCAMP. É possível inferir que o país desenvolva um importante diferencial competitivo se souber investir com maior intensidade nas empresas que têm acesso à força de trabalho desta região.

Ao investigar as políticas públicas disponíveis para apoiar a internacionalização da indústria de software brasileira verifica-se que as ferramentas são adequadas, mas parece que as empresas não têm conhecimento de tudo aquilo que está disponível para as apoiarem ou que elas não estão dispostas a lidar com as eventuais burocracias dos entes públicos. Outro desafio visível é o fato de que parece não haver uma entidade que coordene todos os esforços de definição e condução de objetivos claros para apoiar a indústria de software e que coloque todos os participantes deste processo em contato para trabalharem no mesmo sentido com o mesmo propósito. O mais natural seria que o Governo Federal através do Ministério do Desenvolvimento assumisse este papel, mas após o seu grande ativismo no apoio para a indústria de hardware nas décadas de 1970 e 1980, parece que o governo central não deseja se envolver de maneira muito intensa na construção de uma nova indústria do software. Aos poucos a BRASSCOM vem ocupando este espaço cuja liderança ainda não está definida. Apesar de ter uma atuação recente, a entidade parece estar tendo sucesso nesta empreitada.

O agronegócio nos Investimentos Diretos brasileiros

Recentemente, a SOBEET publicou um artigo que trata da pesquisa anual realizada pela organização sobre as multinacionais brasileiras e a importância do agronegócio no processo de internacionalização das empresas e da economia brasileira.

Os autores Mário Antônio Margarido, Luís Afonso Fernandes Lima e Pedro Augusto Godeguez da Silva introduzem o artigo da seguine forma:

“No período de 2001 até 2008 verifica-se que diferentes fundamentos do setor externo da economia brasileira evoluíram positivamente. Entre os diversos fatores que proporcionaram essa evolução dos fundamentos econômicos do país, dois merecem destaque. O primeiro deles, e mais conhecido, é o comportamento do denominado agronegócio. É de amplo conhecimento que parcela expressiva das exportações brasileiras e, consequentemente, do superávit externo do país, no que se refere à balança comercial no referido período, deve-se às exportações de com destaque para os produtos agropecuários.  

Outro componente que contribuiu de forma expressiva para melhorar os fundamentos da economia brasileira foi o comportamento dos investimentos diretos estrangeiros no Brasil. O somatório desses dois componentes proporcionou um acúmulo de reservas da ordem de US$200 bilhões. Um volume de reservas dessa magnitude torna-se relevante, pois reforça a capacidade do país de resistir em meio a uma conjuntura permeada de incertezas, como a atual, decorrente da crise financeira internacional, como já amplamente comentado em diferentes trabalhos.”

O artigo é disponibilizada em sua íntegra em: “O agronegócios e os investimentos diretos brasileiros”.

Grupo calçadista brasileiro expande sua produção argentina

Coronel Suárez – O grupo brasileiro Vulcabrás, fabricante de calçados Reebok e da marca Olimpikus, na Argentina, inaugurou ontem uma linha de produção de sandálias em sua fábrica na cidade do interior de Buenos Aires.

Com um investimento de 31,9 milhões de pesos, vai lançar a produção “made in Argentina” de sandálias Ipanema, que, em princípio, irá substituir 25% do volume que é importado do Brasil em quatro anos. Em casa espera  perder terreno para sua rival e conterrânea Havaianas.

“Este investimento é parte da vontade do governo argentino para favorecer a produção nacional mais importações. Aceitamos o desafio de responder pró-ativamente “, disse o presidente Vulcabras, Milton Cardoso, durante a cerimônia de inauguração, com a presença do governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli e do secretário da Indústria, Eduardo Bianchi.

Com este empreendimento, a planta Indular (que foi uma das principais do grande grupo falido Gatic) incorporou um oitavo do armazém de 5.200 metros quadrados que abiga o novo maquinário e fornece uma capacidade de produção anual de 1,5 milhões de pares de sandálias. Além disso, a empresa aumentou seu quadro de pessoal em 3000 a 4000 pessoas.

Dois anos atrás, o número de trabalhadores ativos era de 400. Naquela época, o proprietário da fábrica era o empresário argentino Guillermo Gotelli (um ex-Alpargatas), que tinha adquirido após a falência da Gatic em 2003.

Em 2007, o grupo brasileiro a comprou e após dois anos de produção de calçados adicionou sandálias para o verão, como parte de um plano de expansão na Argentina.

“O objetivo é alcançar uma produção média anual de 3 milhões de pares de sandálias para o próximo verão”, disse Cardoso.

Ele disse que entre os planos de investimento da empresa para 2010 está o início da produção de sapatos femininos da marca Azaléia “nesta planta.

Até então, a empresa espera produzir localmente, metade do volume de sandálias disponíveis no mercado e reduzir a participação dos insumos importados na fabricação de calçados de 50% atualmente a 30%, para aumentar a percentagem de produtos origem nacional, em consonância com a iniciativa do governo.

Segundo Cardoso, disse em 2009, os insumos produzidos na Argentina aumentaram a sua quota de produção de 20 para 50% na Indular.

Concorrência justa

Apesar dessas perspectivas, Cardoso fez projeções sobre a evolução das políticas anti-dumping contra as importações da China, um dos grandes concorrentes de sandálias Ipanema, na Argentina.

“O mercado está bem servido de produtos de origem chinesa, que são vendidos a preços ilegais, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Após o término do inquérito anti-dumping do governo, no final do ano, vai se abrir uma grande oportunidade para a indústria da Argentina “, disse Cardoso. Considerou que a partir daí, fixadas as sanções correspondentes, os fabricantes nacionais irá aumentar sua produção e a Vulcabras acompanhará a tendência.

Cardoso que preside a Câmara de calçados de São Paulo, juntamente com os seus pares argentinos, defende a aplicação de direitos específicos para as importações chinesas. “O que pedimos não são políticas protecionistas, mas sim  medidas defensivas. A concorrência é boa quando é leal “, disse ele.

Os primeiros 50.000 pares de sandálias Ipanema produzidos na Argentina, devem ser vendidos a preços que variam entre 29 e 40 pesos e vai competir com as da marca Havaianas.

Contra este adversário, a aposta é uma diferenciação de design e materiais. “Elas são as únicas sandálias com palmilhas anatômicas de PVC expandido, mais duráveis que a borracha ou borracha EVA”, apontou a empresa.

María Agustina Rato Maria Agustina Rato

Fonte: Jornal La Nácion (16/10/2009)

Brasil mira setor elétrico europeu a partir de Portugal

Portugal vai ser a porta de entrada para o Brasil investir no setor elétrico europeu, disse nesta quinta-feira à Agência Lusa o ministro Edison Lobão, das Minas e Energia.

“Nós estamos internacionalizando a nossa empresa de energia elétrica, que é a Eletrobras e, muito provavelmente, entraremos na Europa através de Portugal”, disse Edison Lobão, no final do encontro com o ministro da Economia e Inovação, de Portugal, Fernando Teixeira dos Santos.

“A associação com a EDP é uma hipótese, mas o fato é que começaremos por aqui. Portugal sempre abriu as suas portas, as suas fronteiras para o Brasil e do mesmo modo o Brasil procede com Portugal. E temo-nos dado muito bem”, acentuou.

Edison Lobão, que realiza uma visita de trabalho a Portugal, acrescentou à Lusa que vai debater na sexta-feira, no Porto, com o presidente da Galp, Manuel Ferreira de Oliveira, a consolidação da associação da Petrobras com a empresa portuguesa para operações petrolíferas conjuntas, sobretudo em Portugal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

“Nós temos uma associação com empresas de Portugal. A Galp é uma delas e estamos explorando petróleo no Brasil junto com ela e outras multinacionais e vamos fazer isto também aqui em Portugal e noutros países”, salientou.

As explorações petrolíferas em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe estão também sendo consideradas pela Petrobras.

“É uma hipótese que está a ser estudada pela Petrobras. (A empresa) já se encontra em mais de 30 países. É a maior exploradora de petróleo em águas profundas do mundo, detendo 22% de todas as plataformas do mundo inteiro”, destacou.

Edison Lobão recordou que a Petrobras é a única operadora em 80% de todos campos petrolíferos brasileiros e disse que poderia ampliar operações a Portugal, com empresas portuguesas.

“É nosso interesse ter as empresas portuguesas como nossas aliadas”, reiterou.

O interesse na associação com empresas portuguesas foi explicado pelo governante brasileiro com “a facilidade muito grande de trabalhar e de trabalhar junto com as empresas brasileiras de vários sectores, principalmente no setor energético”.

Fonte: Agência Lusa (16/10/2009)

BNDES AMPLIA VERBA PARA INDÚSTRIA DE SOFTWARE

O orçamento do Programa para Desenvolvimento da Indústria Nacional de Software e Serviços de Tecnologia e Informação do BNDES aumentou de R$ 1 bilhão para R$ 5 bilhões. A elevação se deu por conta da demanda crescente gerada pela política industrial lançada no ano passado. Em três anos, até julho de 2009, a carteira do programa somava projetos de R$ 2,8 bilhões, em 300 operações.

Fonte: Folha de São Paulo (09/10/2009)

O Brasil será a próxima potência em Tecnologia da Informação?

A partir do sucesso do Plano Real em 1994, o processo de internacionalização das empresas brasileiras de tecnologia da informação (TI) ganhou velocidade. Nesse mesmo período, vários países emergentes desenvolveram indústrias de TI de proporções relevantes, incluindo nações como Brasil, China, Coreia do Sul, Índia, Irlanda e Israel.

Aparentemente, o Governo teve um papel importante nessa escalada. No rol da liberalização do país em 1992 foi criado o Programa Softex 2000, que mais tarde seria chamado de Sociedade Softex com o objetivo de promover a exportação de software das empresas brasileiras. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) também criou em 1996 o Prosoft, programa em que as empresas de software não necessitam de oferecer garantias reais para obter empréstimos.

Já no início dos anos 2000, a APEX criou a marca “Brazil IT” para promover o país como produtor de tecnologia e o PSI-SW (Programa Setorial Integrado de Software e Correlatos), dividindo as empresas do setor por verticais e segmentos. O programa já possui mais de 100 empresas cadastradas.

Em 2005, foi criada a BRASSCOM como fruto de uma parceria estabelecida entre: o Governo Federal através do Ministério do Desenvolvimento e o grupo das maiores empresas exportadoras de software brasileiras.

Para entender como ocorreu o processo de internacionalização das principais empresas de TI brasileiras, entrevistou-se os principais executivos de importantes empresas de capital nacional. Identificou-se o grau de internacionalização[1], quando o processo foi iniciado e seus principais mercados-alvo.

Identificou-se que algumas empresas possuem o processo de internacionalização mais antigo e estão mais adiantadas tais como CI&T e Stefanini. Por outro lado, há empresas que começaram recentemente na arena internacional estão ganhando velocidade tais como Spring Wireless e BRQ. Os principais fatores que explicariam o grau de internacionalização seriam a quantidade de recursos investidos e o grau de envolvimento dos principais executivos dessas empresas.

Os executivos apontaram como principais desafios para avançar na internacionalização das empresas que comandam:

  • Estrutura tributária com alta taxação incidente na mão-de-obra qualificada utilizada por essas empresas;
  • Pequena disponibilidade de linhas de financiamento para estimular a internacionalização, fusões e aquisições de empresas brasileiras;
  • Ausência ou imagem pouco relevante do software brasileiro nos mercados de TI dos países desenvolvidos;
  • Pequena disponibilidade de mão-de-obra fluente em línguas estrangeiras, principalmente o inglês.

Observa-se que a indústria brasileira de TI possui uma série de desafios que precisam ser enfrentados em um esforço conjunto de empresas, governos e sociedade civil. O sucesso desta jornada dependerá do quanto estes agentes serão capazes de alinhar seus interesses para promover o país e suas empresas no exterior. Talvez seja possível num futuro próximo ver o Brasil ser considerado como uma potência emergente de TI, assim como hoje acontece na área de energia e alimentos.

 


 

[1] O índice foi calculado obtendo o grau de transnacionalidade sobre vendas e empregados e calculando a média entre eles. O índice de transnacionalidade de vendas é obtido pela razão entre faturamento no exterior e faturamento total. O índice de transnacionalidade de empregados é obtido pela razão entre total de empregados no exterior e o número global. Essa é uma adaptação da metodologia utilizada pela UNCTAD anualmente.

Bob’s busca franqueados no Peru e na Colômbia

Depois de abrir o primeiro restaurante no Chile este ano, o Bob’s planeja expandir-se para outros países da América Latina. Os executivos da controladora do Bob’s, a Brazil Fast Food Corporation (BFFC), estão prospectando na Colômbia, no Peru e no Equador possíveis “master” franqueados, grupos responsáveis pela abertura de vários restaurantes em um determinado mercado.

A missão de sair à procura de investidores pela América Latina coube a Flávio Maia, diretor de expansão e franquia da empresa. “As perspectivas são bastante positivas”, afirma o executivo, que não descarta a possibilidade de fechar um acordo nos próximos meses, sobretudo na Colômbia.

Maia tem sido um assíduo frenquentador de feiras de franquias tanto na América Latina como na Europa. “Com a crise, os negócios estavam parados, mas agora já começamos a receber telefonemas”, afirma o diretor do Bob’s.

“A internacionalização será um foco da empresa 2010″, afirma Ricardo Bomeny, presidente da BFFC. No Brasil, o Bob’s só perde em tamanho para o McDonald’s, mas a cadeia brasileira de hambúrgueres gaba-se de ter a maior cobertura geográfica, com 678 pontos de vendas espalhados por todo país.

Na verdade, a experiência internacional do Bob’s começou pelo caminho mais difícil, do outro do lado Oceano Atlântico. Há cerca de dois anos, a rede chegou à Luanda, Angola, onde possui três restaurantes franqueados.

Foi o acordo firmado com a rede Doggis, do Chile, no ano passado, que tornou mais realista a perspectiva de implementação de um plano de expansão sustentável na América Latina.

“O Chile será uma plataforma para o Bob’s, um aprendizado”, afirma Bomeny. Pelo acordo, a BFFC abrirá 40 lojas da Doggis no Brasil nos próximos cinco anos, enquanto a Doggis deve inaugurar 29 pontos de venda da marca brasileira até 2012. Nos dois países, o projeto prevê lojas próprias e franquias.

“Toda a América Latina, de forma geral, oferece boas oportunidades para as franquias brasileiras”, avalia Marcelo Cherto, da Growbiz, consultoria especializada em varejo. Mas, na sua avaliação, a Colômbia em especial é um país onde há ainda uma grande espaço para as franquias brasileiras. “O mercado colombiano ainda não foi tão invadido pelas marcas americanas como o México”, diz Cherto, que está assessorando o Bob’s no processo de internacionalização da rede.

Foi ele quem apresentou o Doggis ao Bob’s depois de ser contratado pela rede chilena para assessorá-la em um projeto de expansão. Inicialmente, o Doggis buscava portas de entrada no México e na Colômbia.

A competição, porém, não será fácil. Até mesmo as operações do McDonald’s na América Latina pertencem, desde 2007, a uma master franqueada com sede na Argentina, a Arcos Dorados, empresa controlada pelo empresário colombiano Woods Staton.

Por oferecer um produto de baixo valor unitário, as redes de fast food conseguiram se sair melhor do que outros setores com a eclosão da crise econômica.

Neste ano, dois fatores estão aliviando os custos das cadeias de fast food no Brasil: a queda dos preços das commodities agrícolas e a valorização do real em relação ao dólar. O câmbio tem um impacto direto sobre os negócios já que muitos insumos são importados, como batata e equipamentos.

Em 2008, os restaurantes da BFFC, incluindo unidades próprias e franqueadas, faturaram R$ 577 milhões, 17% mais do que em 2007. As vendas do McDonald´s no Brasil cresceram 22%, totalizando R$ 3,3 bilhões em 2008.

Fonte: Jornal Valor Econômico (11/09/2009)

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