O gigante gentil da América do Sul: o Brasil exibe a sua força na crise hondurenha

O presidente brasileiro Lula está demonstrando a nova auto-confiança do seu país durante a crise em torno do governo deposto de Honduras.
Bastante popular no Brasil, Lula busca agora um papel de liderança na América do Sul. Mas certos setores na região ainda se ressentem da ascensão desse país enorme.

A embaixada brasileira na capital hondurenha, Tegucigalpa, parece um local sitiado. A polícia está a postos na frente do prédio, e lá dentro mais de 70 pessoas vivem aglomeradas. Elas fazem fila para usar o banheiro, perambulam pelo jardim e o pátio interno e estão acampadas em salas de depósito de materiais e escritórios. Cenas que lembram um mercado negro se desenrolam nos corredores, quando cigarros são trocados por carregadores de telefones celulares ou sabão. Há falta de toalhas.

No vestíbulo em frente às salas do embaixador, vários jornalistas dividem um único colchão de ar, enquanto correspondentes de uma estação de rádio hondurenha dormem nos arquivos. Um homem usando um chapéu de caubói – Manuel Zelaya – coloca de vez em quando a cabeça no corredor para encorajar os seus apoiadores a perseverarem.

Três meses atrás, Zelaya, presidente de Honduras, um pequeno país da América Central, foi derrubado em um golpe. Em 21 de setembro, Zelaya retornou de surpresa à capital hondurenha, onde procurou refúgio na embaixada brasileira. Não se sabe como ele conseguiu voltar a Honduras a partir do local em que se encontrava, na vizinha Nicarágua. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva teria sabido que Zelaya pretendia se refugiar na embaixada apenas meia hora antes da chegada do presidente deposto ao prédio. Segundo o ministro brasileiro das Relações Exteriores, a vida de Zelaya estava em perigo.

Isso foi há mais de suas semanas, e Zelaya, operando basicamente dentro de território brasileiro, tem usado o seu tempo para organizar um movimento de resistência contra os responsáveis pelo golpe. Ao fazer tal coisa, ele jogou Brasília no centro de um conflito delicado. Honduras poderá se transformar agora em um teste para demonstrar se o Brasil é capaz de desempenhar o seu papel de principal potência regional.

Protagonista importante
Graças a Silva, conhecido por todos como Lula, o maior país da América Latina é atualmente um protagonista econômico importante. Porém, o Brasil tem, até o momento, atuado com discrição nos conflitos internacionais. Desde a criação do país, 187 anos atrás, a não intervenção nas questões internas de outros países é um dogma central da política externa brasileira. Os diplomatas do Itamaraty, conforme é conhecido o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, tem a reputação de serem eficientes e de exercerem uma cautela quase excessiva, evitando a todo custo tomar partidos em questões políticas.

Em Honduras, o gigante gentil está mostrando as suas garras pela primeira vez. O líder golpista Roberto Micheletti deu aos brasileiros um ultimato para entregar o seu rival em dez dias. O presidente Lula respondeu afirmando que Zelaya poderia ficar quanto tempo quisesse na embaixada. O Ministério das Relações Exteriores apoiou a decisão de Lula, observando que a América Central situa-se na esfera de interesse do Brasil.

Veja a cronologia da crise 

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a Constituição

Nos últimos anos, Lula expandiu sistematicamente a influência do Brasil no exterior. Ele procurou aliados para apoiar a tentativa do Brasil de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), modernizou as ultrapassadas forças armadas do país e alimentou um novo nacionalismo doméstico. Ele criou alianças com a China, a Índia e a África do Sul. Segundo Lula, o grupo G-20, que inclui economias emergentes, finalmente acabou com o clube exclusivo dos sete principais países industrializados do mundo. “O G-7 está morto”, afirmou Lula.

Sob o ponto de vista dos brasileiros, a crise financeira marca o início de uma nova ordem política. Estamos marchando rumo a um mundo multipolar”, afirma o assessor de política externa de Lula, Marco Aurélio Garcia. “E a América do Sul será um desses polos.” Garcia afirma que Lula está procurando criar uma aliança de todos os países sul-americanos, e que ele está determinado a não tolerar mais golpes como o de Honduras. “Durante décadas nós voltamos as costas para os nossos vizinhos, e, no entanto, nós temos mais fronteiras do que quase todos os outros países do mundo”, diz Garcia.

Garcia, um professor barbudo da cidade de Porto Alegre, no sul do Brasil, é um dos arquitetos da nova política externa brasileira. O seu escritório em Brasília fica somente a algumas salas de distância dos gabinetes de Lula. Durante a ditadura militar brasileira, Garcia foi para o exílio, e mais tarde assessorou o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula nas questões internacionais. Os críticos dizem que esse esquerdista de idade já meio avançada é um Rasputin brasileiro, e o acusam de ter articulado o retorno de Zelaya a Honduras, juntamente com o presidente venezuelano Hugo Chávez. Garcia nega as acusações.

Os novos gringos
Há um motivo para ele negar. O governo Lula deseja evitar criar a impressão de que estaria se posicionando para se tornar uma potência mantenedora da paz no estilo dos Estados Unidos. Em países menores da América Central, a nova auto-confiança brasileira é recebida com sentimentos mistos, e os políticos locais na Bolívia, no Equador e no Paraguai já estão manifestando ressentimentos em relação aos “novos gringos” do Brasil.

Raio-X de Honduras

  • UOL ArteNome oficial: República de Honduras
    Capital: Tegucigalpa
    Divisão política: 18 Estados
    Línguas: espanhol, garifuna, dialetos ameríndios
    Religião: católica 97%, protestantes 3%
    Natureza do Estado: república presidencialista
    Independência: da Espanha, em 1821
    Área: 112.088 km²
    Fronteiras: com Guatemala (256 km), El Salvador (342 km), Nicarágua (922 km)
    População: 7.792.854 de pessoas
    Grupos étnicos: mestiços 90%, ameríndios 7%, negros 2%, brancos 1%
    Economia: segundo país mais pobre da América Central; dependente de exportação de café e banana; principal parceiro econômico é EUA
    Taxa de desemprego: 27,8%
    População abaixo da linha da pobreza: 50,7%

Brasília deve a ascensão até o seu status de potência regional em grande parte ao tremendo apoio à Lula dentro do país. Sob o seu governo, milhões de pobres do país ascenderam ao nível da classe média baixa. A crise financeira atingiu o Brasil bem depois dos outros países, e o Brasil foi também um dos primeiros a dela emergir. A economia está crescendo, a inflação está sob controle e o real brasileiro é uma das moedas mais fortes do mundo.

Lula comemorou um importante triunfo simbólico na última sexta-feira, quando o Comitê Olímpico Internacional escolheu o Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. A euforia que se seguiu nas ruas do Brasil deveu-se em grande parte à sensação de que Lula superou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que viajou a Copenhague para fazer campanha – sem resultado – para a sua nativa Chicago.

Popular em casa
Os cidadãos brasileiros menos afluentes, em especial, veem Lula, um ex-vendedor de rua e ex-metalúrgico, como um membro de sua própria classe, e como alguém que dá a eles uma voz e influência na esfera política. Ele está na presidência há quase sete anos, e ainda desfruta de índices de aprovação popular de mais de 70%. “Sem o sucesso da sua política social, Lula não seria respeitado internacionalmente”, afirma Garcia.

Como ex-líder sindical, Lula é também um negociador talentoso. Ele tinha boas relações até mesmo com o ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, um homem desprezado pela maioria das pessoas na América Latina.
No Haiti, onde os brasileiros representam o maior contingente militar das forças de paz da ONU, Brasília demonstrou que é capaz de atuar como mantenedora da paz. Com as suas políticas, Lula obriga protagonistas aparentemente irreconciliáveis a se unirem. “That’s my man right there”
(expressão que equivale a algo como “Este é o meu homem de confiança”, também interpretada, no Brasil, como “Este é o cara!”), disse entusiasmadamente o presidente Obama perante os líderes mundiais na reunião de cúpula do G-20 em Londres – apontando para o presidente brasileiro.

Washington necessita de Lula para contrabalançar o homem forte venezuelano de esquerda, Hugo Chávez, e os seus congêneres em Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua. Porém, o brasileiro não está disposto a deixar que o usem como figura anti-Chávez. “Chávez e Lula são bons amigos”, afirma Garcia. “Nós valorizamos a mudança social que Chávez implementou na Venezuela.” Ele se recusa a aceitar as críticas ao líder autoritário, alegando que Chávez está sendo “demonizado” e insistindo que a democracia na Venezuela “não se encontra em perigo”. Já Lula está pedindo aos Estados Unidos que procurem dialogar com Chávez.

Rachaduras em formação
A disputa em relação a Chávez não é o único motivo pelo qual rachaduras iniciais estão começando a se formar na relação entre a superpotência no norte e os seu rival em ascensão no sul.

Autoridades governamentais em Washington criticaram tanto o retorno de Zelaya a Honduras quanto – em uma nítida referência aos brasileiros – “aqueles que facilitaram o seu retorno”.

Nos Estados Unidos, muitos criticam o fato de o “presidente Lula dar pouca atenção às ambições nucleares do Irã e às inconsistência verificadas durante a eleição presidencial iraniana”, diz a especialista em América Latina do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, Julia Sweig.

Os críticos de Lula aparentemente acreditam que, em Honduras, o presidente brasileiro caiu em uma armadilha montada pelo seu amigo Chávez. O ex-ministro mexicano das Relações Exteriores, Jorge Castañeda, alega que Chávez articulou o retorno de Zelaya. Segundo Castañeda, Chávez desejava inicialmente levar Zelaya de El Salvador para a missão da ONU em Tegucigalpa, mas o plano não funcionou. A seguir, Chávez aparentemente propôs que Zelaya buscasse refúgio na embaixada brasileira. Agora que tomou um partido, diz Castañeda, Lula não pode mais atuar como mediador.

Exercendo pressão
Na verdade, Lula tem tentado conter o impetuoso Zelaya desde o golpe hondurenho. Celso Amorim, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, revelou agora que Zelaya pediu uma aeronave a Lula dois meses atrás para poder retornar a Tegucigalpa.

Lula esperava que os Estados Unidos fizessem mais pressão sobre o regime golpista. Mas houve uma forte discórdia dentro do governo Obama quanto a estratégia correta, e, como resultado, Washington acabou dando apenas um apoio tépido ao presidente deposto. Os golpistas, por sua parte, estão tentando ganhar tempo, esperando que Zelaya esteja esquecido até as eleições de novembro.

O retorno espetacular de Zelaya provavelmente acelerará uma solução política. Na semana passada, o governo impôs estado de emergência, fechou emissoras contrárias ao regime e se revelou para o resto do mundo como uma ditadura. Quatro dias depois, ele anunciou que estava suavizando as novas medidas. Caso o regime continue não cooperando, o Brasil pretende levar a questão da crise hondurenha ao Conselho de Segurança da ONU.

Mas o jogo arriscado de Lula parece estar surtindo efeito. O apoio da elite hondurenha a Micheletti, o presidente golpista, desmoronou nos últimos dias. Um grupo de empresários ricos revelou um plano para restituir o poder a Zelaya. Já Micheletti concordou em receber uma delegação da OEA (Organização dos Estados Americanos), cuja entrada no país fora anteriormente proibida por ele. A delegação da OEA deixou Honduras na última quinta-feira sem que houvesses muitos sinais visíveis de progresso. No entanto, os delegados disseram que tiveram sucesso em dar início a um diálogo entre as duas partes.

Em um outro gesto de reconciliação, Micheletti também retirou o ultimato para que os brasileiros entregassem Zelaya. Em um discurso transmitido pela televisão, o sitiado presidente interino anunciou que estava mandando a Lula um “abraço caloroso”.

Fonte: Der Spiegel

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