Cenários para o Brasil de 2030 (introdução)

Iniciarei a partir deste post a discussãode cenários para o Brasil de 2030. Neste post tratarei do Brasil atual e de suas características.

O Brasil surgiu para o mundo como uma colônia exportadora de commodities e assim o se manteve ao longo de toda a sua história. O país passou pelos ciclos do pau-brasil, açúcar, algodão, látex para produção da borracha, café, e mais recentemente a soja e o minério de ferro. Esse é o único país do mundo cujo nome deriva de uma commodity (Furtado, 1959).

Até o início do século XX, o Brasil era um país basicamente agrário. Anteriormente ao Governo de Getúlio Vargas existiram algumas iniciativas de industrialização do país, mas de forma não ordenada e incipiente. Talvez Irineu Evangelista de Souza, mais conhecido como Barão de Mauá tenha sido o grande expoente desse movimento e também os imigrantes alemães e italianos que chegaram ao Brasil em um momento posterior.

Após da década de 1930, o Brasil viveu um acentuado processo de desenvolvimento econômico, com a criação de indústrias nos mais variados segmentos. Foram três os períodos de maior pico: o governo de Getúlio Vargas (de 1930 a 1945), os anos JK (de 1956 a 1960) e os anos da ditadura militar (de 1964 a 1985). Durante esses momentos de auge da indústria nacional, o Estado Brasileiro atuou de forma intensa planejando a economia, criando empresas estatais em setores inexistentes ou incipientes.

Com o recente processo de industrialização, que praticamente ocorreu em um século, o Brasil começou a surpreender seus congêneres mundiais com o desenvolvimento de setores industriais de alto valor agregado e a exportação de tecnologia brasileira, demandante de pessoal com elevado nível de capacitação técnica. Setores como a indústria aeronáutica com tecnologia autóctone, a indústria automobilística exportadora de inúmeros veículos e também constituinte de uma parte relevante do setor no mundo, inserida no processo de “global sourcing”[1], a maior indústria de Tecnologia da Informação da América Latina e o desenvolvimento de uma indústria energética com combustíveis limpos constituem algumas das conquistas mais notáveis alcançadas por esse histórico de desenvolvimento industrial.

Ao final de 1970, com a ascensão de Margareth Thatcher como primeira ministra do Reino Unido, iniciou-se o processo de liberalização e globalização de bens e serviços do século passado. Ao longo das duas décadas seguintes, apoiado pelo Consenso de Washington, houve um grande movimento de privatizações e liberalizações das economias nacionais pelo mundo. Iniciava-se ali o fim da utilização das idéias keynesianas, e cepalinas, mais regionalmente, nas economias dos países em desenvolvimento. O estado passa a ser satanizado e Adam Smith volta a ser glorificado.

Friedrich List[2] afirma que os países passam por quatro grandes fases durante seu processo de desenvolvimento econômico:

  1. Inicialmente ocorre a identificação de uma matéria-prima a partir da qual o país constitui sua base econômica e de transações com outras nações em nível mundial. No caso brasileiro, a partir da independência o café representou esse produto no contexto da constituição e expansão da base econômica de exportação.
    1. Implanta-se uma política de substituição de importações para permitir o desenvolvimento de uma indústria nacional razoavelmente diversificada com bases nas receitas geradas no momento anterior ao modelo.
    2. Abre-se a economia do país para competição direta com produtos estrangeiros, aumentando seu nível de produtividade e trazendo uma maior especialização para aqueles bens competitivos em escala internacional.
    3. A partir de uma base industrial consolidada e com produtos de maior conteúdo tecnológico agregado, os países passam a internacionalizar suas empresas, buscar novos mercados para seus produtos e defender modelos liberais para outras nações que ainda não tenham vivido o processo de desenvolvimento anteriormente descrito.

O Brasil viveu completamente as duas primeiras etapas desse processo em sua história. A partir da década de 1990, com a abertura comercial, a terceira etapa do processo foi implantada com razoável sucesso.

Como é o Brasil de hoje?

Dentre os produtos mais exportados no ano de 2007, que constituíram um total de US$ 137,5 bilhões, um total de menos de 35% constitui-se em bens industriais seja de capital ou de consumo. O restante da pauta de exportação compõe-se por matérias-primas, combustíveis e outros produtos não-industriais (Anuário de Comércio Exterior, 2007).

Sob Lula, o Brasil encontra-se em um ponto de inflexão histórico a partir do qual deve decidir se deseja retornar ao ponto de ser somente um grande produtor de bens agrícolas ou se deseja educar seu povo e tomar as medidas que conduzirão seu desenvolvimento econômico no sentido de produzir e exportar bens de elevado valor agregado.

A tabela a seguir demonstra os principais indicadores do Brasil de 2008.

Critério Situação atual
População brasileira1 Aproximadamente 187 milhões
Posição mundial no ranking de PIBs2 10ª
Posição mundial no ranking do IDH3 70ª
Valor do IDH3 0,8 (grupo: alto desenvolvimento humano)
Expectativa de vida (em anos)3 71,7 anos
Taxa de analfabetismo1 10,4%
Taxa de analfabetismo funcional1 22,2%
Taxa bruta de matrículas (7 a 14 anos)1 97,6%
Taxa bruta de matrículas (15 a 17 anos)1 82,2%
PIB per capital (US$)4 2.835
Os dez principais produtos da pauta de exportação por ordem decrescente de valor transacionado (US$ milhões)5 Veículos e autopeças (16.598), petróleo (12.784), minérios (9.745), ferro e aço (9.432), soja (9.311), açúcar (6.167), máquinas e equipamentos (4.454), produtos químicos (4.274), papel e celulose (4.005) e carne bovina (3.879).
Principais instituições mundiais da qual é membro6 Banco Mundial, FMI, OIT, OMC, OMS, ONU, Mercosul

Tabela 1: O Brasil de 2008 em fatos e números

Fonte: 1 IBGE – Dados de 2006; 2 Banco Mundial – Dados de 2006; 3 PNUD – Dados de 2005; 4 Relatório Goldman Sachs; 5 Anuário de Comércio Exterior – Dados de 2007; 6 Ministério do Desenvolvimento – Dados de 2008

Objetivos da série de três artigos

O objetivo desta série de artigos é descrever dois cenários para o Brasil de 2030, ocasião na qual o país já teria comemorado seu segundo centenário de independência há oito anos. Serão descritos dois cenários para o país em 2030 com as respectivas pré-condições para que eles se concretizem.

No primeiro cenário o país assume de maneira definitiva sua centenária condição de celeiro do mundo, deitado em seu eterno berço esplêndido, e contenta-se em assistir a China e a Índia dominarem seu desenvolvimento industrial e de serviços e disputa com a Rússia a condição de grande exportador mundial de commodities.

No segundo cenário, o país toma em suas mãos o papel de guiar seu destino rumo à construção de uma nação que educa seu povo, promove um desenvolvimento industrial equânime e mostra para o mundo a alternativa de constituição de uma civilização na qual a tolerância à diferença e o combate às desigualdades e injustiças constituem-se no eixo motriz de seu processo de evolução. Nesse cenário, o Brasil disputa em pé de igualdade a liderança mundial com China, Estados Unidos e Índia.

Estes artigos utilizam os cenários projetados pelo relatório “Dreaming with BRICs: The Path to 2050”, que cria o acrônimo BRIC, significando Brasil, Rússia, Índia e China e as aponta como as economias de crescimento econômico mais acelerado nas próximas décadas, colocando-as entre as cinco maiores economias do planeta no ano de 2050 (Goldman Sachs, 2003).


[1] “Global sourcing” é uma estratégia de compras que tem como objetivo explorar eficiências em escala global na produção. Apesar de normalmente essa estratégia ser utilizada como uma forma de identificação de fontes globais mais baratas, agora tem sido vista como um passo padrão na expansão global das empresas.

[2] A versão original da obra, denominada “Das Nationale System der Politischen Ökonomie”, foi publicada em 1841. A indicação colocada neste trabalho refere-se à versão brasileira da obra. Essa publicação tornou Friedrich List o autor alemão mais consultado e referenciado após Karl Marx. List apresentou conceitos que faziam um contraponto às teorias de Adam Smith e Karl Marx defendendo a colaboração global entre governos e empresas. Tais teorias apresentam-se válidas, mais de 150 anos após sua publicação.

10 responses to this post.

  1. Posted by Henrique Verissimo on 12/10/2009 at 20:09

    Muito interessante e bem construído, Ricardo.

    Precisamos visializar cenários e contribuir para a realização das melhores alternativas visualizadas.

    Parabéns pelo seu blog! Procurarei visitá-lo sempre.

    Um abraço.

    Responder

    • Bom dia Henrique! Obrigado pelo comentário sobre o blog! Sempre que puder comentar algo sobre os posts agradceria.

      Nos próximos posts projetareialguns cenários nos quais o Brasil se torna potência: agrícilo, petrolífera ou industrial.

      Abs,

      Ricardo.

      Responder

  2. Posted by Daniel on 13/10/2009 at 19:46

    Parabéns pela iniciativa Ricardo!
    Sobre o relatório da Goldman Sachs, em 2007 andaram atualizando as previsões com relação à índia. Acho que não fizeram sobre o Brasil… Seus 3 artigos podem dar um trabalho legal sobre as perspectivas do Brasil e preencher esse gap!

    Responder

  3. Posted by Fernanda Vasques on 14/10/2009 at 10:20

    Oi Ricardo,
    Gostaria de sugerir um tema para postagem: empresas multi-nacionais que estão formando, aqui no Brasil, centros de TI globalizados para prestação de serviço e desenvolvimento. Pude verificar em empresas como a Volvo e HSBC que essa é uma tendência crescente.

    Parabéns pelo blog e sucesso! ;o)

    Responder

    • Oi Fernanda, obrigado pela visita!
      Vou buscar mais informações sobre este ponto de vista para tentar escrever.
      Você tem material sobre isso? Na minha dissertação de mestrado escrevi sobre as empresas brasileiras de TI.
      Bjs,
      Ricardo.

      Responder

  4. Fala Ricardo,

    Vim prestigiar seu blog! Pois bem, trabalhando na área de petróleo, não podia deixar de questionar se países exportadores de commodities não podem se modernizar às custas delas. Veja bem o caso da Noruega com seu fundo do Petróleo, dedicado a livrar o país da “maldição do petróleo”, ou seja, a dependência da economia de um recurso mineral não renovável. Acho que esta linha de questionamentos pode ser interessante para seu blog.

    Saudações,
    Sergio Sousa

    Responder

    • Grande Sérgio, quanto tempo hein?!
      Nos próximos posts, um dos cenários é aquele em que o Brasil se torna mero exportador de petróleo e o outro leva em conta o petróleo como um dos elementos industriais.
      Acho que se tivermos condições de seguir o exemplo da Noruega, assim como é a intenção do governo ao criar a PetroSal talvez possamos usar a riqueza para nos desenvolvermos mais rápido, mas também não se esqueça que sempre há o risco de ficarmos como a Venezuela, México, Rússia e tantos outros…
      Abs,
      Ricardo.

      Responder

  5. Posted by Fernando Prestes Maia on 16/10/2009 at 12:50

    Caro amigo Ricardo! Fico contente em ver que vc criou um blog para este assunto tão importante, e pouco comentado: o papel do Brasil e suas empresas no mundo globalizado.
    Definitivamente, o Brasil está passando por um momento privilegiado e está construindo novos alicerces para ser um player mundial, produtor de commodities ou de produtos de valor agregado, com tecnologia colaborada ou própria.
    O Brasil precisa definir quem quer ser até 2030, até antes, como diz o nosso Projeto Brasil 2022, no Instituto PNBE o qual presido e que você compõe.
    Ainda acredito que o Brasil que queremos aos 200 anos de independência e para os eventos esportivos que sediaremos – Copa 2014 e Olimpíadas 2016, tem que ser: economicamente forte, socialmente justo, eticamente respeitável, ambientalmente sustentável e politicamente democrático.
    Força BRASIL!!!

    Responder

    • Grande Fernando, quanto tempo!
      Concordo completamante a visão do Brasil 2022 e como você sabe sou também um entusiasta da idéia.
      Acho que a Copa do mundo e as Olímpiadas se bem geridos serão uma grande oportunidade para corrigirmos alguns problemas urbanos de nossas principais capitais e talvez fixar de vez o Brasil como uma referência no desenvolvimento sustentado mundial.
      Seguimos adiantes, fortes e quíça nos tornemos um player internacional com a relevância que merecemos ter. Afinal, todos os países baleia já foram muito importantes em algum momento da história. Só nós que ainda não tivemos esta oportunidade!
      Abs,
      Ricardo.

      Responder

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