Cenários para 2030 – Brasil Celeiro do Mundo

O objetivo destes posts é descrever três cenários para o Brasil de 2030, ocasião na qual o país já teria comemorado seu segundo centenário de independência há oito anos. Serão descritos três cenários para o país em 2030 com as respectivas pré-condições para que eles se concretizem.

No primeiro cenário o país assume de maneira definitiva sua centenária condição de celeiro do mundo, deitado em seu eterno berço esplêndido, e contenta-se em assistir a China e a Índia dominarem seu desenvolvimento industrial e de serviços e disputa com a Rússia a condição de grande exportador mundial de commodities.

No segundo cenário o país torna-se um grande produtor mundial de petróleo, gás e álcool, permitindo que ocorra uma grande concentração de sua economia através do efeito colateral pela “doença holandesa”. A partir de suas descobertas de grandes jazidas de petróleo na camada pré-sal e do desenvolvimento de sua vantagem competitiva na produção de biocombustível, o país torna-se a “Usina Energética” do mundo.

No terceiro cenário, o país toma em suas mãos o papel de guiar seu destino rumo à construção de uma nação que educa seu povo, promove um desenvolvimento industrial equânime e mostra para o mundo a alternativa de constituição de uma civilização na qual a tolerância à diferença e o combate às desigualdades e injustiças constituem-se no eixo motriz de seu processo de evolução. Nesse cenário, o Brasil disputa em pé de igualdade a liderança mundial com China, Estados Unidos e Índia.

Esse trabalho utiliza os cenários projetados pelo relatório “Dreaming with BRICs: The Path to 2050”, que cria o acrônimo BRIC, significando Brasil, Rússia, Índia e China e as aponta como as economias de crescimento econômico mais acelerado nas próximas décadas, colocando-as entre as cinco maiores economias do planeta no ano de 2050 (Goldman Sachs, 2003).

Como os países se tornam mais ricos?

A resposta a questão sobre como os países se desenvolvem e se tornam ricos é bastante controversa e complexa. O relatório de Goldman Sachs (2003) possui uma orientação mais liberal ao propor uma explicação para esse tema.

Segundo o relatório, na medida em que as economias em desenvolvimento crescem, elas desenvolvem um potencial para alcançar taxas mais elevadas até se igualar em nível de desenvolvimento ao Primeiro Mundo. Esse potencial se origina de duas fontes. A primeira é que economias em desenvolvimento possuem menos capital por trabalhador do que as economias desenvolvidas; os retornos sobre capital são maiores e um dado investimento resulta em taxas mais elevadas no estoque de capital. A segunda fonte é aquela na qual os países em desenvolvimento podem usar tecnologias disponíveis em países mais desenvolvidos para alcançar as técnicas desses países mais avançados.

Na medida em que os países se desenvolvem, essas forças perdem seu ímpeto e as taxas de crescimento tendem a diminuir para o patamar dos índices de países desenvolvidos. No Japão e Alemanha, as taxas de crescimento muito aceleradas nas décadas de 1960 e 1970 deram lugar a um crescimento moderado nos anos 1980 e 1990. Isso explica porque uma simples extrapolação de crescimento traz previsões irreais ao longo do tempo. Um simples exemplo seria o chinês: assumindo que o crescimento do PIB chinês se mantenha em um ritmo de 8% ao ano ao longo das três próximas décadas, teríamos uma previsão de que a economia chinesa seria três vezes maior do que a norte-americana em 2030 e 25 vezes maior em 2050 (Goldman Sachs, 2003).

Cenário: “Brasil – Celeiro do Mundo”

Desde o período Imperial, muitos intelectuais, economistas e políticos brasileiros afirmam que a vocação natural brasileira é ser um grande produtor e exportador de produtos agrícolas. Talvez uma frase do Visconde de Itaboraí, político no período imperial e maior inimigo do Barão de Mauá na ocasião, tenha celebrizado essa percepção: “O Brasil não deve fugir de sua vocação como grande produtor agrícola. A industrialização é uma besteira!” Desde então, poucos de nossos governantes tiveram a real disposição de mudar esse destino “inexorável” das terras tupiniquins.

Segundo o estudo de Goldman Sachs, em 2050 o Brasil será a quinta maior economia do mundo.

Fonte: Goldman Sachs

Fonte: Goldman Sachs

Tabela 2: As maiores economias mundiais em 2050

O estudo prevê um crescimento médio para o Brasil de 3,7% para os qüinqüênios que vão desde 2000 até 2050. Com essa taxa de crescimento de seu PIB no ano de 2030 o Brasil seria o 9º colocado dentre os maiores PIBs do mundo. Uma estimativa bastante conservadora, considerando que hoje o Brasil já ocupa a 10ª posição[1] e no passado já chegou a ocupar a 8ª posição.

Fonte: Goldman Sachs

Fonte: Goldman Sachs

 Tabela 4: PIB estimado para países do G6 atual e futuro G6 (BRIC, EUA e Japão)

Considerando que tais premissas seriam extremamente conservadoras, esse cenário está plenamente alinhado com a expectativa de que o país cresça com base em produtos primários e energia.

A premissa não explicita desse cenário, mas já colocada inúmeras vezes na imprensa é de que Brasil e Rússia serão os grandes fornecedores de commodities para China e Índia. Colocado de maneira metafórica, esses países representariam por sua vez os papéis de fábrica e escritório do mundo.

Premissas do cenário

O estudo define quatro pré-condições para que todos os países do BRIC tenham condições de atingir esse cenário: estabilidade macroeconômica, capacidade institucional, abertura e educação. O trabalho argumenta a importância de cada um desses aspectos da seguinte forma:

  • Um ambiente de instabilidade macroeconômica pode dificultar o crescimento por distorcer os preços e os incentivos. A inflação minaria o crescimento por desencorajar a poupança e o investimento.
  • As instituições influenciaram a eficiência da economia mais da forma como a tecnologia faria, ou seja, instituições mais eficientes permitiriam uma economia produzir mais bens com menos recursos.
  • A abertura ao comércio e ao investimento direto produtivo poderia fornecer acesso a bens importados, novas tecnologias e a mercados mais amplos. Apesar dos estudos não serem conclusivos sobre as conseqüências de políticas de substituição de importações e promoção de exportações, eles indicariam uma tendência de correlação positiva entre abertura e crescimento.
  • Na medida em que a economia cresça rapidamente, ela pode enfrentar déficits de profissionais qualificados. Assim vão se tornando cada vez mais necessários, trabalhadores com mais anos de escolaridade. Os estudos apontam para uma correlação positiva entre anos de estudos e taxa de crescimento do PIB. Portanto, a educação seria um elemento fundamental para não se transformar em gargalo para a manutenção das taxas de crescimento estimadas.

Especificamente no caso do Brasil, haveria duas outras condições que deveriam ser cumpridas para que as premissas do estudo tenham condições de se materializar.

  • O Brasil possui taxas médias de investimento mais baixas do que os outros países do BRIC e, portanto, teria que elevar tais níveis.
  • A dívida interna do Brasil é muito superior do que a dívida de seus congêneres do BRIC e tal débito poderia representar uma barreira para o crescimento. Seria necessária a implementação de um ajuste fiscal mais severo. 

Como seria o “Brasil – Celeiro do Mundo”?

A tabela a seguir descreve como seria o Brasil desse cenário.

Critério Situação em 2030
População brasileira1 Aproximadamente 238 milhões
Posição mundial no ranking de PIBs4
Posição mundial no ranking do IDH3 38ª
Valor do IDH2 0,87 (grupo: alto desenvolvimento humano)
Expectativa de vida (em anos)3 76,3 anos
Taxa de analfabetismo2 3%
Taxa de analfabetismo funcional2 6,4%
Taxa bruta de matrículas (7 a 14 anos)2 99,0%
Taxa bruta de matrículas (15 a 17 anos)2 90,0%
PIB per capital (US$)4 9.823
Os dez principais produtos da pauta de exportação2 Petróleo, combustíveis (álcool, gasolina e biodiesel), minérios, ferro e aço, carne bovina, veículos populares, soja, açúcar, café e papel e celulose.
Principais instituições mundiais da qual é membro2 Alca, Banco Mundial, FMI, OIT, OMC (subsídios agrícolas reduzidos), OMS, ONU, OPEP

Tabela 5: O Brasil de 2030 no cenário “Celeiro do Mundo”

Fonte: 1 Estimativa IBGE; 2 Estimativas do próprio autor; 3 Estimativa de que o Brasil atinja o nível de desenvolvimento humano da Argentina de 2005; 4 Relatório Goldman Sachs;

 


[1] Fonte: Banco Mundial – Dados de 2006

6 responses to this post.

  1. Posted by Renato Lopes on 21/10/2009 at 16:01

    Ricardo

    Fiquei curioso para saber quais seriam os indicadores estimados para o Brasil nos outros 2 cenários. Você pretende escrever mais sobre isso?

    Parabéns pelo blog! Os assuntos são muito interessantes.

    Abraço,

    Renato Lopes

    Responder

  2. […] deverá ser uma grande potência militar e também  uma grande potência econômica em 2030, tudo indica que em 2030 o Brasil já será um país de 1º Mundo ou está a caminho ser um país de 1º […]

    Responder

  3. Posted by Luciana Almeida on 09/01/2014 at 16:30

    Ricardo, você publicou os demais cenários?

    Responder

  4. Posted by Dave Johanson on 27/04/2014 at 23:30

    Parabéns pelo blog Ricardo,você pode falar um pouco da politica interna do brasil para 2030 ?

    Responder

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