Panorama do processo de internacionalização da indústria de TI brasileira

Na década de 1990, com o fim da reserva de informática, o Governo Federal criou o SOFTEX 2000 para apoiar a internacionalização da indústria de software brasileira. O Programa concentrou-se bastante no apoio a empresas com produtos que tivessem potencial de venda nos países desenvolvidos. O programa tinha cinco metas principais, sendo que aquela de maior visibilidade era a obtenção de 1% do mercado mundial de software. Nas quatro outras metas que não a participação de mercado, o programa foi bem-sucedido, mas não foi alcançado o aumento vigoroso das exportações brasileiras de software. No início dos anos 2000, o programa foi renomeado e passou a ter um foco na excelência do software brasileiro e não mais na sua exportação.

Em 1997, o Governo Federal cria a APEX. Em 2005, a APEX cria o PSI-SW como uma frente setorial para congregar as empresas de software e impulsionar o processo de exportação dos produtos e serviços destas empresas. Esse programa é conduzido em parceria com o SOFTEX que atua como um ente captador no Brasil.

Em 2003, a BRASSCOM surgiu como uma iniciativa apoiada pelo Governo Federal, mas partindo da reunião das maiores empresas produtoras de software no Brasil com vistas a exportação. Hoje esta entidade representa 70% do PIB de TI no Brasil. Ela vem preenchendo a lacuna deixada pela Sociedade SOFTEX como ente de impulsão no processo de internacionalização das empresas de software brasileiras. A grande diferença é que tal iniciativa parte do setor privado, tendo apoio do governo e um plano diretor estruturado por uma importante consultoria internacional de estratégia, AT Kearney.

Indiretamente, a FINEP também tem apoiado o processo de internacionalização das empresas brasileiras de TI com a criação dos fundos Inova Brasil e Verde-Amarelo que tem por objetivo incentivar, através de empréstimos e recursos a fundo perdido, as empresas a investirem no desenvolvimento de produtos com competitividade internacional.

O processo de internacionalização de muitas das empresas começou na década de 1990. Dentre as empresas analisadas, a Datasul tinha o processo mais antigo deles que datava de 1992, época em que o país passava por um ciclo de liberalização de sua economia, vivia o fim da reserva de mercado da informática, a abertura do país para o mundo e os avanços tecnológicos das economias mais desenvolvidas, principalmente dos EUA e do Japão.

Este primeiro ciclo de internacionalização das empresas de software é marcado por uma falta de estratégia clara, feito muitas vezes de maneira errática, utilizado pelas empresas como forma de experimentar o processo de exportação ou atender a clientes estrangeiros. Iniciam esse ciclo na década de 1990: Datasul, DBA, MATERA, CI&T, Stefanini, Modulo, Totvs e Politec. Dentre estas empresas somente DBA, Stefanini e Totvs persistiram no processo contínuo de evolução e aprendizado ao longo das décadas de 1990 e 2000. As outras empresas retiraram-se desse processo ou reduziram bastante suas atividades no exterior para um período de recapitalização e análise das lições aprendidas nessa jornada estrangeira.

Nos 2000, Datasul, MATERA, CI&T, Modulo e Politec retomam suas atividades de internacionalização com mais recursos e experiência adquiridos no mercado nacional. Ao mesmo tempo, ActMinds, BRQ, CPM Braxis, Comperantime e Spring Wireless dão seus primeiros passos na atividade internacional. Dentre elas, somente a Comperantime utiliza o processo como uma forma de teste nos mercados estrangeiros. A BRQ assume as operações internacionais como uma prioridade e busca recursos do BNDES para impulsionar esta estratégia.

O consórcio ActMinds é formado com empresas já maduras da região de Campinas, sendo comandadas por um antigo diretor do SOFTEX que possui vasta experiência no processo de exportação de software, propiciando às empresas do consórcio a oportunidade de iniciar suas atividades exteriores em um patamar superior. A CPM começa sua atuação internacional em 2004, em 2006 ocorre a fusão com a Braxis que já era resultado da fusão de outras três importantes empresas do mercado brasileiro. A empresa recebe um aporte de R$ 170 milhões para alavancar seu processo de internacionalização. Por fim, a Spring Wireless, retardatária do processo, consegue avançar a passos largos e se tornar uma das empresas mais internacionalizadas deste estudo. A Spring Wireless inicia sua internacionalização em 2006 pela Chile para testar o processo e, logo, decide que é necessário capitalizar para impulsionar esta iniciativa.

 Ao analisar os mercados escolhidos pelas empresas para sua atuação verificam-se alguns padrões: 

– Empresas que possuem produtos muito especializados em características de negócio da economia brasileira (Totvs) buscam sua expansão internacionalização pelos países latino-americanos e da comunidade lusófona. Isto decorre da percepção de que estas empresas possuem mais competitividade nos mercados emergentes dado que o nível de maturidade das economias destes países geralmente é inferior a aquele verificado na economia brasileira. 

– Empresas que possuem algum grau de inovação como aspecto de diferenciação tais como CI&T, Comperantime, Modulo e Spring Wireless. Estas empresas apresentam dois caminhos identificados neste estudo: 

  • Iniciam suas operações internacionais por países latino-americanos para testar o processo de internacionalização. A partir deste primeiro teste, elas podem continuar a expansão por estes países ou ir para mercados mais maduros, uma vez que verificaram a sustentabilidade do processo de internacionalização. Enquadram-se nesta categoria: Comperantime e Spring Wireless. 
  • Vão diretamente para os mercados maiores e mais maduros de TI, pois conseguem se posicionar em um segmento premium e não concorrer por preços naqueles mercados. Pode existir a busca de tecnologia nestes mercados mais maduros para aumentar a vantagem competitiva da empresa. Podem aqui ser categorizadas: CI&T e Modulo. 

– Empresas de serviços offshore seguem duas trajetórias distintas: 

  • Iniciam sua atuação pelos EUA ou Europa devido aos tamanhos destes mercados, seguindo para outros países da Europa ou Japão. São exemplos desta categoria: BRQ, MATERA, CPM Braxis e Politec. 
  • Iniciam sua atuação pelos países latino-americanos, de certa forma, obedecendo ao critério de expansão crescente na distância psíquica dos países-alvo selecionados. O representante desta categoria é a Stefanini IT Solutions. 

Quando se avaliam as razões que levaram estas empresas a buscarem o caminho de internacionalização encontra-se a figura de um empreendedor visionário que sempre ou desde cedo na história da empresa teve uma grande vontade de levar sua organização a vender produtos ou serviços nos mercados internacionais, ou seja, na grande maioria dos casos investigados as empresas ainda teriam muita demanda para suas ofertas no Brasil. Depreende-se assim que este processo não decorre de uma estratégia claramente definida, mas sim de uma estratégia emergente das oportunidades da empresa, do mercado internacional e da vontade do empreendedor ou executivo principal da organização. São exemplos: BRQ, CI&T, Comperantime, Modulo, Spring Wireless e Stefanini IT Solutions.  

Apesar disso, constata-se também que o maior grau de abertura da economia brasileira serviu como elemento catalisador deste processo. Algumas delas aproveitaram a existência de um maior número de organizações multinacionais no país para desenvolverem suas atuações nos países de origem das matrizes desses clientes (CI&T, Comperantime, MATERA e Spring Wireless) navegando pela rede de relacionamentos desenvolvida com a operação brasileira destas empresas. Outras empresas foram para o mercado exterior como forma de buscar novas competências, concorrer em um mercado mais sofisticado tecnologicamente ou proteger-se de concorrentes estrangeiros (Modulo, Politec e Stefanini).  

As principais barreiras encontradas no processo de internacionalização pela maioria das empresas são: 

  • Ausência ou imagem pouco relevante do software brasileiro nos mercados de TI dos países desenvolvidos; 
  • Pequena disponibilidade de linhas de financiamento para estimular a internacionalização, fusões e aquisições de empresas brasileiras; 
  • Estrutura tributária com alta taxação incidente na mão-de-obra qualificada utilizada por essas empresas; 
  • Baixa quantidade de acordos estabelecidos entre o Brasil e outros países que evitem a bi-tributação; 
  • Taxa cambial pouco competitiva nos últimos com a apreciação da moeda brasileira tornando mais caros os produtos e serviços vendidos pelas empresas nacionais nos mercados exteriores; 
  • Disponibilidade restrita de mão-de-obra fluente em línguas estrangeiras.

Para mitigar a ausência da imagem de produtor de tecnologia para o Brasil, inicialmente a APEX e mais adiante a BRASSCOM tomaram medidas com os formadores de opinião internacionais para constituir uma imagem de país que possui empresas detentoras de tecnologias avançadas e com capacidade de atender a demanda como destino de offshore alternativo à Índia. A APEX criou uma marca denominada “Brazil IT”, algo que lembra o conceito da Nike com seu “Just do it”. Se fossemos traduzir essa marca teríamos algo aproximado a “abrasileire-se”. Além de escolher os congressos mais adequados para marcar a participação brasileira, foram feitos trabalhos de conscientização e divulgação do Brasil junto a consultorias tais como Gartner Group, Forrester e McKinsey, as principais formadoras de opinião dos CIOs das grandes empresas norte-americanas.

Um grande desafio para a internacionalização da indústria de software brasileiro é o seu financiamento. No final da década de 1990, o BNDES criou o Prosoft como uma linha de crédito que não solicita garantias reais para financiar as empresas desse setor. Mas o programa parece estar ganhando velocidade de uso somente ao final dos anos 2000 em que os volumes disponíveis para empréstimo alcançaram o patamar de R$ 2 bilhões. O BNDES Participações também tem atuado mais recentemente no sentido de comprar participações nessas empresas para capitalizá-las de forma que possam financiar seus processos de internacionalização. Recentemente, o BNDES tem disponibilizado recursos para promover a criação de grandes empresas brasileiros no setor de TI e promover sua internacionalização. Ainda assim, esses recursos são escassos e concentrados em poucas empresas.

O setor de TI é altamente demandante de mão-de-obra especializada. A CLT, legislação brasileira que regulamenta o trabalho, implica em um aumento relevante nos custos da mão-de-obra através dos impostos incidentes em folha de pagamento e adicionais de salários (INSS, FGTS, férias, 13º salário, licença-maternidade, entre outros). Além disso, há todos os outros impostos incidentes sobre o faturamento (PIS e Cofins), os lucros: bruto e líquido (IRPJ e CSLL). A redução dessa carga tributária teria um impacto importante na competitividade das empresas brasileiras. Recentemente, o Governo Federal promoveu uma desoneração desta cadeia com redução dos impostos sobre a folha de pagamentos para as empresas que exportem software acima de um determinado patamar através de seu Plano de Desenvolvimento Produtivo.

A tributação é um componente que encarece o preço final das empresas em seu processo de internacionalização. Nesse contexto, a bitributação, ou seja, a incidência de impostos sobre o lucro líquido tanto no país em que instalam suas filiais como no Brasil. Ao contrário de outros países, como Espanha e Japão, o Brasil não oferece nenhum incentivo fiscal à internacionalização de suas empresas. Para minimizar o impacto de sua pesada carga tributária, o Brasil possui alguns tratados internacionais para evitar a bitributação. A lista atual da Receita Federal conta com 27 países, tais como Argentina, Chile, Equador e México. Mas desta lista não constam os EUA, o principal destino de exportações offshore das empresas brasileiras de TI. Ainda nestes países com os quais existem acordos que evitam a bitributação, sua aplicação não é simples, fator de dificuldade adicional para as empresas que queiram utilizar tais prerrogativas quando aplicáveis.

Outro desafio com implicações para a formação dos custos da indústria de software brasileira é a recente apreciação da moeda brasileira em decorrência da grande liquidez disponível em dólares para a economia nacional provenientes do ciclo internacional de valorização das commodities em âmbito mundial, principalmente dos alimentos. Em 2007, o Brasil alcançou uma situação nova em sua história: tornou-se um credor líquido em dólares, ou seja, o país possui em reservas cambiais que superam seu estoque de dívida externa. Essa grande abundância de moeda estrangeira faz com que o real ficasse bastante valorizado e encarecessem os preços de venda dos produtos e serviços das empresas exportadoras brasileiras. Nesse aspecto nada tem sido feito pelo Governo para atenuar tal situação.

Por fim, a disponibilidade de mão-de-obra treinada nas ferramentas técnicas necessárias para atender às demandas externas e, principalmente, fluentes nas línguas estrangeiras dos principais mercados-alvo para os produtos brasileiros tais como inglês, espanhol, japonês, alemão e francês tem se reduzido ao longo do tempo. Um fato curioso foi detectado neste trabalho: as empresas da região de Campinas não possuem esta restrição quando se trata da fluência na língua inglesa. Uma possível explicação para este fator diferencial é que há um grande contingente das melhores universidades brasileiras localizadas naquela região: UFSCAR, UNICAMP, USP e PUCCAMP. É possível inferir que o país desenvolva um importante diferencial competitivo se souber investir com maior intensidade nas empresas que têm acesso à força de trabalho desta região.

Ao investigar as políticas públicas disponíveis para apoiar a internacionalização da indústria de software brasileira verifica-se que as ferramentas são adequadas, mas parece que as empresas não têm conhecimento de tudo aquilo que está disponível para as apoiarem ou que elas não estão dispostas a lidar com as eventuais burocracias dos entes públicos. Outro desafio visível é o fato de que parece não haver uma entidade que coordene todos os esforços de definição e condução de objetivos claros para apoiar a indústria de software e que coloque todos os participantes deste processo em contato para trabalharem no mesmo sentido com o mesmo propósito. O mais natural seria que o Governo Federal através do Ministério do Desenvolvimento assumisse este papel, mas após o seu grande ativismo no apoio para a indústria de hardware nas décadas de 1970 e 1980, parece que o governo central não deseja se envolver de maneira muito intensa na construção de uma nova indústria do software. Aos poucos a BRASSCOM vem ocupando este espaço cuja liderança ainda não está definida. Apesar de ter uma atuação recente, a entidade parece estar tendo sucesso nesta empreitada.

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