“Espero que o Brasil puxe a região, como a China fez com a Ásia”

Andrés Oppenheimer, nascido em Buenos Aires em 1951, afirma que há um grande paradoxo entre os discursos e a realidade na América Latina, entre as cúpulas que proclamam a unidade da região e a realidade, na qual alguns países acham mais fácil exportar frangos para a China do que para o país vizinho. Dessa falta de integração surge o nome do novo livro do jornalista argentino, “Los Estados Desunidos de las Américas” (Edaf), que ele lança nesta semana em Madri.

El País: Essa desunião tem remédio?
Andrés Oppenheimer:
Sim, é claro. Mas será preciso rirmos das palhaçadas dos presidentes nessas cúpulas para que percebam o ridículo que estão fazendo. Se a América Latina não se integrar em aspectos concretos não poderá competir na economia global.

El País: O Brasil deve capitanear essa liderança?
Oppenheimer:
Eu tenho esperança de que o Brasil puxe o resto da América Latina como a China fez com a Ásia, porque, embora tenha uma política externa lamentável, de apoio a qualquer ditadura que exista, é um modelo de continuidade econômica e de êxito. O êxito brasileiro é muito simples: não tentar inventar nem mudar a política a cada cinco anos. O grande sucesso de Lula foi continuar as políticas econômicas de Fernando Henrique Cardoso. Por outro lado, há uma corrente de presidentes narcisistas-leninistas que estão fazendo o que Khadafi fez na década de 1970, crendo que a carestia das matérias-primas é um modelo econômico. A verdade é que os países que mais estão reduzindo a pobreza são o Chile e o Brasil, e não os países da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas).

El País: Como acha que o Brasil está administrando a liderança regional?
Oppenheimer:
Creio que está ocupando espaços que o México está deixando vazios. Pensava-se: o Brasil fica com a América do Sul e o México com a América Central. Mas na crise de Honduras, por exemplo, vimos que os protagonistas foram Brasil e Costa Rica.

El País: O que representa a possível reeleição de Álvaro Uribe na Colômbia?
Oppenheimer:
É péssima para a Colômbia, para a América Latina e para Uribe. Inutiliza tudo o que ele construiu, que é combater uma insurreição armada com a democracia. Mas se for fazer a mesma coisa que Chávez, que é mudar a Constituição para se reeleger, não tem qualquer argumento para dizer que é diferente de Chávez. Espero que não faça isso.

El País: Por que o México está perdendo peso na região?
Oppenheimer:
Creio que o presidente Calderón está fazendo coisas boas em muitos sentidos, mas em política externa ficou dormindo. Talvez porque queira se diferenciar de (Vicente) Fox, talvez porque esteja muito consumido em sua luta contra o narcotráfico. Mas, seja como for, está cometendo um erro. Na crise de Honduras, o México não aparece na foto. Hoje, neste mundo globalizado, quem não aparece na foto, quem não tem destaque, perde posições.

El País: Qual é a solução para o golpe em Honduras?
Oppenheimer:
Tudo foi mal feito. Vão chegar a um acordo porque Honduras depende da ajuda externa. Os candidatos presidenciais não vão querer chegar às eleições sabendo que serão repudiados pela comunidade internacional, que vão assumir a Presidência de um país em bancarrota. Sua pressão e a de fora vão forçar que cheguem a um acordo, que tem de ser um governo de união, com representação de Zelaya e com representação do regime de fato.

El País: Com Zelaya na liderança?
Oppenheimer:
Talvez com Zelaya na liderança e com as mãos atadas para que não faça o que queria fazer, que era um golpe a partir de dentro, como os que Chávez faz na Venezuela. O que acontece em Honduras deve ser condenado. A comunidade internacional atuou bem.

Fonte: Jornal El País / tradução UOL

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