Modelos de crescimento

NÃO HÁ COMO negar que o modelo chinês de crescimento econômico é diferente de tudo o que vinha sendo aplicado por outros países e que ele dá resultado.

No Brasil, prestar atenção à experiência chinesa não significa esquecer as referências europeia e americana que nos nortearam até a década de 90. Também não implica ignorar duas questões graves do modelo chinês como projeto de desenvolvimento: o regime político fechado e o minúsculo impacto em termos de justiça social.

Mas se nestes aspectos discordo do modelo, reconheço que vale a pena olhar para as suas virtudes. Uma delas é a forte parceria entre Estado e empresas, uma equação virtuosa na qual o governo é forte e as empresas também são fortes.

Outro ponto positivo é a construção econômica voltada para fora. As economias que se voltam para dentro não evoluem. O crescimento e o desenvolvimento só acontecem quando são gerados excedentes para exportação e as empresas se internacionalizam, com instalações e produção nos países onde estão os seus clientes.

E temos a visão de longo prazo. O fenômeno que estamos assistindo não é fruto de planejamento recente.
Quem quer chegar ao topo precisa olhar pelo menos 25 anos à frente. A China, no final dos anos 70, definiu como projeto crescer 10% ao ano durante 50 anos.

Só à guisa de comparação: há 25 anos, o Brasil exportava tanto quanto a China. E nós vendíamos mais do que eles para os Estados Unidos. Hoje, ainda somos 1% do comércio mundial, como éramos naquela época, mas a China já alcança quase 10%.

Vale também destacar no modelo chinês: carga fiscal e regulatória baixas; construção de infraestrutura de primeira classe pela combinação de gastos privados e estatais; e atração do investimento estrangeiro não como poupança externa, mas para adquirir tecnologia e para abrir novos mercados.

Há quem procure desmerecer a China tratando-a como fabricante de produtos de má qualidade, imitadora não autorizada de marcas ocidentais e exploradora de mão de obra barata. Há alguma verdade nessas acusações, embora isso não seja privilégio da China.

Inquestionável é que o modelo chinês, do ponto de vista econômico, é o mais ajustado ao mundo contemporâneo.
O Brasil também pode fomentar a cooperação entre o Estado e a iniciativa privada, consolidar uma economia exportadora e planejar a caminhada rumo aonde queremos chegar em 2040. Mas para tanto é preciso investir em educação, desenvolvimento tecnológico, infraestrutura e na criação de empresas campeãs mundiais em seus setores.


Fonte: EMÍLIO ODEBRECHT – Folha de São Paulo (25/10/2009)

2 responses to this post.

  1. Só vejo um problema nisso tudo Ricardo, a falta de visão estratégica e a cultura do empresariado brasileiro em tentar ganhar sem investimento. Conforme sua conclusão, investimento é necessário, principalmente em capital humano, porém o que vejo são empresas brasileiras com um imenso potencial nas mãos e que não possuem inteligência humana necessária para crescerem mais do que são atualmente. Não existe política de treinamento dos profissionais que estão chegando, enfim, é necessário às empresas um pouco mais de visão estratégica e pensar coletivamente e não apenas como uma única peça no tabuleiro.
    Abraços.

    Responder

    • De fato não só o empresário assim como o governo e o povo brasileiro de uma forma geral tem visão de curto prazo e busca sempre o caminho de menor esforço e maior retorno. O que é diferente em muitos dos países desenvolvidos.
      Apesar de tudo isso, o Brasil tem um potencial enorme por conta de nossos recursos naturais e do nível de desenvolvimento recente que temos conseguido imprimir. O grande acerto do Governo Lula nestes 7 anos foi ter mudado pouco do que recebeu e isso fez com que políticas vitoriosas ganhassem corpo e mantivessem sua consistência ao longo do tempo.
      Mas voltando aos empresários, acho que eles são essencialmente concentrados no resultado financeiro. Dessa forma, a condução rumo a um desenvolvimento econômico planejado e mais acelerado, acredito depender essencialmente do governo central. O artigo do Emílio Odebretch mostra bem isso.
      Em resumo, sendo muito simplista no meu raciocínio, o que nos impediu até aqui de ser uma nação mais pujante foi nossa cultura de jeitinho, falta de foco no longo prazo e baixo investimento em educação. Espero que essas coisas continuem a mudar com mais velocidade no médio prazo.
      Abs

      Responder

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