O Brasil e o investimento direto

A remessa de lucros e dividendos vai superar neste ano, pela primeira vez, o ingresso líquido de investimento direto no Brasil, segundo projeção da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet). O Brasil vai precisar, portanto, de dinheiro especulativo, aplicado em bolsas ou no mercado de renda fixa, para fechar as contas externas sem queimar reservas. Não há crise à vista, mas haverá uma queda de qualidade no balanço de pagamentos e o País ficará um pouco mais vulnerável às mudanças bruscas de humor no mercado internacional.

A tendência não é nova. A margem de segurança das contas externas começou a diminuir sensivelmente em 2008, quando as importações de bens começaram a crescer bem mais acentuadamente que as exportações, mudança provocada em grande parte pela aceleração do crescimento econômico. A conta de comércio melhorou em 2009, com a recessão, mas o investimento direto diminuiu e ao mesmo tempo as empresas estrangeiras começaram a remeter mais lucros e dividendos para ajudar as matrizes a enfrentar os tempos difíceis, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

Pelas contas da Sobeet, o investimento direto líquido (entradas menos saídas) ficará em US$ 30 bilhões. O déficit na conta corrente ficará em US$ 49 bilhões, segundo o Banco Central (BC). O mercado financeiro estima em US$ 47,5 bilhões para este ano e US$ 60 bilhões para o próximo. A remessa de lucros aumentou desde o começo da crise e está embutida nessas previsões. Em qualquer caso, o investimento direto destinado à atividade empresarial e não ao mercado financeiro ficará muito abaixo do necessário para cobrir o buraco. A diferença será coberta por dólares aplicados em negócios de curto prazo.

As projeções da Sobeet reforçam expectativas formadas com base nos cálculos do BC e do mercado financeiro. Mas foram apresentadas juntamente com o relatório anual de investimentos elaborado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

Segundo esse relatório, o Brasil caiu da 10.ª para a 14.ª posição na lista de receptores de investimento estrangeiro direto. O valor líquido recebido passou de US$ 45,1 bilhões em 2008 para US$ 25,9 bilhões em 2009. A redução de 42,4% foi bem maior que a observada na América Latina (19,35%), nas economias em desenvolvimento (22,9%) e no mercado global (34,4%).

Em conjunto, os países em desenvolvimento continuaram no ano passado conquistando espaço no mercado, não só como receptores, mas também como fontes de investimentos diretos. Em 2000, só 11,1% desses investimentos se originaram nas economias em desenvolvimento. No ano passado essa participação chegou a 20,8%. O Brasil tem acompanhado esse movimento com a crescente internacionalização de suas maiores companhias. A importância dos emergentes no movimento de capitais tem acompanhado sua participação cada vez maior no comércio internacional.

O Brasil se mantém como um dos países mais atraentes para o investimento direto estrangeiro. Perdeu participação nos fluxos, no ano passado, mas subiu da 4.ª para a 3.ª posição entre os países citados como destinos para aplicações de recursos até 2012. Ficou atrás da China e da Índia e logo à frente dos Estados Unidos, Rússia e México.

Mas a concretização dos negócios seria mais garantida, segundo dirigentes da Sobeet, se o Brasil participasse de acordos internacionais de investimento  importantes para a segurança de quem aplica o dinheiro. Entre 2000 e 2009 foram concluídos 1.004 tratados. Países europeus participaram de 509 e países em desenvolvimento, de 829. Latino-americanos assinaram 131. A China, 48; a Índia, 43; e até a Venezuela assumiu compromissos (6). As economias em transição (ex-socialistas) entraram em 253 pactos desse tipo. O Brasil não assinou nenhum, assim como não concluiu nenhum acordo de livre comércio com parceiros de primeira linha.

Essa é uma das mais estranhas peculiaridades brasileiras. Se acordos de investimentos podem ser bons para países tão diferentes quanto os Estados Unidos, o Chile, a China, a Áustria, a África do Sul e o Vietnã, por que não servem para o Brasil?

2 responses to this post.

  1. Gostei desse seu post. So achei o ultimo parágrafo um pouco “parcial”…

    Encontrei a mesma máteria publicada no Estado de SP, no site do Itamaraty. O conteúdo tava um pouco menos parcial…

    http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-estado-de-sao-paulo/2010/07/23/remessa-pode-superar-ied-pela-1a-vez

    Lembrando sempre que, hoje, o Brasil não mais sofre de síndrome de vira-lata. Isso já da uma idéia do porquê dos acordos que servem para os países como Estados Unidos, o Chile, a China, a Áustria, a África do Sul e o Vietnã, que já são bem conhecidos por sua política protecionista e nada correta com impactos ambientais, podem não servir para o Brasil.

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  2. Gosto muito do seu blog e sempre que posso leio os posts! Parabéns…..continue o ótimo trabalho. Shirley de Souza de Cestas de Natal

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