O Brasil e o investimento direto

A remessa de lucros e dividendos vai superar neste ano, pela primeira vez, o ingresso líquido de investimento direto no Brasil, segundo projeção da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet). O Brasil vai precisar, portanto, de dinheiro especulativo, aplicado em bolsas ou no mercado de renda fixa, para fechar as contas externas sem queimar reservas. Não há crise à vista, mas haverá uma queda de qualidade no balanço de pagamentos e o País ficará um pouco mais vulnerável às mudanças bruscas de humor no mercado internacional.

A tendência não é nova. A margem de segurança das contas externas começou a diminuir sensivelmente em 2008, quando as importações de bens começaram a crescer bem mais acentuadamente que as exportações, mudança provocada em grande parte pela aceleração do crescimento econômico. A conta de comércio melhorou em 2009, com a recessão, mas o investimento direto diminuiu e ao mesmo tempo as empresas estrangeiras começaram a remeter mais lucros e dividendos para ajudar as matrizes a enfrentar os tempos difíceis, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

Pelas contas da Sobeet, o investimento direto líquido (entradas menos saídas) ficará em US$ 30 bilhões. O déficit na conta corrente ficará em US$ 49 bilhões, segundo o Banco Central (BC). O mercado financeiro estima em US$ 47,5 bilhões para este ano e US$ 60 bilhões para o próximo. A remessa de lucros aumentou desde o começo da crise e está embutida nessas previsões. Em qualquer caso, o investimento direto destinado à atividade empresarial e não ao mercado financeiro ficará muito abaixo do necessário para cobrir o buraco. A diferença será coberta por dólares aplicados em negócios de curto prazo.

As projeções da Sobeet reforçam expectativas formadas com base nos cálculos do BC e do mercado financeiro. Mas foram apresentadas juntamente com o relatório anual de investimentos elaborado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

Segundo esse relatório, o Brasil caiu da 10.ª para a 14.ª posição na lista de receptores de investimento estrangeiro direto. O valor líquido recebido passou de US$ 45,1 bilhões em 2008 para US$ 25,9 bilhões em 2009. A redução de 42,4% foi bem maior que a observada na América Latina (19,35%), nas economias em desenvolvimento (22,9%) e no mercado global (34,4%).

Em conjunto, os países em desenvolvimento continuaram no ano passado conquistando espaço no mercado, não só como receptores, mas também como fontes de investimentos diretos. Em 2000, só 11,1% desses investimentos se originaram nas economias em desenvolvimento. No ano passado essa participação chegou a 20,8%. O Brasil tem acompanhado esse movimento com a crescente internacionalização de suas maiores companhias. A importância dos emergentes no movimento de capitais tem acompanhado sua participação cada vez maior no comércio internacional.

O Brasil se mantém como um dos países mais atraentes para o investimento direto estrangeiro. Perdeu participação nos fluxos, no ano passado, mas subiu da 4.ª para a 3.ª posição entre os países citados como destinos para aplicações de recursos até 2012. Ficou atrás da China e da Índia e logo à frente dos Estados Unidos, Rússia e México.

Mas a concretização dos negócios seria mais garantida, segundo dirigentes da Sobeet, se o Brasil participasse de acordos internacionais de investimento  importantes para a segurança de quem aplica o dinheiro. Entre 2000 e 2009 foram concluídos 1.004 tratados. Países europeus participaram de 509 e países em desenvolvimento, de 829. Latino-americanos assinaram 131. A China, 48; a Índia, 43; e até a Venezuela assumiu compromissos (6). As economias em transição (ex-socialistas) entraram em 253 pactos desse tipo. O Brasil não assinou nenhum, assim como não concluiu nenhum acordo de livre comércio com parceiros de primeira linha.

Essa é uma das mais estranhas peculiaridades brasileiras. Se acordos de investimentos podem ser bons para países tão diferentes quanto os Estados Unidos, o Chile, a China, a Áustria, a África do Sul e o Vietnã, por que não servem para o Brasil?

Investimento das multinacionais brasileiras no exterior bate novo recorde

A participação de empresas brasileiras no mercado externo, processo também conhecido como internacionalização, bateu recorde no primeiro semestre deste ano, com negócios que somaram US$ 12 bilhões.

Esse é o melhor resultado para um semestre desde que o Banco Central começou a fazer o levantamento, em 1968.

No conceito de participação, a autoridade monetária considera a compra total ou parcial de uma empresa no exterior, inclusive por meio de uma maior participação acionária.

O resultado reflete uma forte recuperação em relação ao ano passado, quando os negócios somaram apenas US$ 1,1 bilhão, em função principalmente da crise econômica internacional.

Causas

Para especialistas, a retomada dos investimentos brasileiros no exterior é consequência, dentre outros fatores, da desvalorização de empresas estrangeiras, que ainda não se recuperaram da crise.

“Empresas americanas e europeias ainda não recuperaram seu valor de mercado. E como as brasileiras estão com dinheiro em caixa, puderam avançar no exterior”, diz o professor Jase Ramsey, da Fundação Dom Cabral.

Outra razão, segundo ele, está em uma “vantagem artificial”: a valorização do real frente ao dólar, que dá maior poder de compra às empresas brasileiras.

“Sem dúvida, o artíficio cambial ajuda. Mas ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que as companhias brasileiras conseguiram passar pela crise com dinheiro em caixa. É mérito delas também, que saíram da turbulência relativamente mais fortes”, diz Ramsey.

Na avaliação do professor de comércio internacional da Fundação Instituto de Administração (FIA), José Roberto Araújo Cunha, a internacionalização das empresas brasileiras, além de ser uma questão de “sobrevivência” em certos setores, também traz “benefícios” para a economia interna.

“Aquele pensamento de que estaríamos exportando empregos é parte do passado. As empresas que vão para o exterior ganham competitividade e, assim, conseguem praticar preços interessantes para o consumidor brasileiro”, diz. Oportunidade A lógica é a da “perda de oportunidade”.

Ou seja, se a empresa brasileira não entrar no mercado americano, por exemplo, companhias de outras nacionalidades – como chinesas e coreanas – vão ocupar esse espaço.

“E quando isso acontece, elas ganham escala e podem praticar preços menores. Já as brasileiras perdem espaço lá fora e ainda correm o risco de ter seu produto com competidores mais baratos inclusive no mercado doméstico”, diz. Cunha cita o setor de autopeças brasileiro como um exemplo de setor que já foi forte, mas que deixou de se internacionalizar e acabou perdendo competitividade.

Uma das empresas brasileiras que mais se internacionalizaram nos últimos anos, a Gerdau também está entre aquelas que aproveiram para fazer negócios no semestre, com um investimento de US$ 1,6 bilhão na Ameristeel, baseada nos Estados Unidos, onde já era majoritária.

O professor da FIA diz que as empresas buscam espaço em outros mercados não apenas para ampliar seus lucros, mas também para ter acesso direto ao consumor – especialmente quando existem barreiras comerciais.

“Vários países impõem barreiras tarifárias ou não-tarifárias à importação de certos produtos. Muitas vezes, as empresas estrangeiras não conseguem exportar e acabam abrindo unidades nesses mercados”, diz. “As empresas brasileiras estão fazendo o que as asiáticas fizeram há 30 anos”, diz.

Fonte:  Agência BBC – 27/07/2010

Para o Brasil, enfim chegou o amanhã

By PAULO PRADA

For the past century, Brazil has been a land of great potential—but few results. With runaway inflation and stratospheric national debt, the country was too much of a mess for anyone to take it seriously on the world stage.

How times have changed.

Consider this: In the face of the worst global economic crisis since the Great Depression, Brazil’s economic output dipped a tiny 0.2% last year, and is expected to grow as much as 6% this year. Everyday Brazilians have been too busy buying washing machines, cars and flat-screen televisions to even notice the downturn.

Brazil is already the biggest economy in Latin America and the 10th-biggest in the world. By 2050, it will likely move into fourth place, leapfrogging countries including Germany, Japan and the U.K., according to a study by Goldman Sachs.

Clearly, Brazil has turned a corner—and is now a nation with the heft, ambition and economic fundamentals to become a world power. But the country has enormous challenges it must overcome before it can fully live up to its potential.

Its public sector is bloated and riddled with corruption. Crime is rampant. Its infrastructure is badly in need of repair and expansion. The business environment is restrictive, with a labor code ripped from the pages of Benito Mussolini’s economic playbook. Brazil also risks patting itself on the back so much that it fails to see the colossal work that remains to be done.

“There’s too much good happening at the moment for the country not to take advantage of it,” says Ricardo Amorim, a well-known financial consultant in São Paulo. “Brazil has never had as much opportunity as it will have in the years ahead.”

Big Promise

Brazil has always had a lot to live up to, simply because of its size. The country is bigger than the continental U.S. and has almost as many people as Germany, France and the U.K. combined. Yet except when it came to soccer and music, many Brazilians themselves tended to believe the notion—apocryphally attributed to Charles de Gaulle—that “Brazil is not a serious country.”

Things started changing in the 1990s. The government adopted strict monetary policies and a laser-like focus on balancing the books. That fiscal prudence has given the country remarkable cash reserves—and breathing room during crises.

For instance, when the big downturn hit in 2008, private lending began to dry up. So the government, flush with cash reserves and the keys to an aggressive development bank, ordered state-run lenders to open the credit taps. The banks complied, lending out record amounts last year to Brazilians eager to join the country’s quickly growing consumer class. Internal demand soared, softening the blow of the slowdown.

“This is a different Brazil than 10 years ago,” President Luiz Inácio Lula da Silva boasted recently. Back then, he said, “the crisis in Greece would have already bankrupted Brazil.”

What’s more, there’s now a political consensus to avoid the mistakes of the past. Until recently, elections in Brazil were considered make-or-break contests between irresponsible, populist proposals and the voices of investment, stability and growth. Now neither leading candidate from the right or left in October’s election is expected to stray far from current economic policies, a functional blend of pro-business market rules and social-welfare programs.

Even a pledge for a bigger state role in the economy by Dilma Rousseff, Mr. da Silva’s outgoing chief of staff and his hand-chosen successor as the party’s candidate, isn’t scaring off the business community. “It’s refreshing to have an election and see there’s no fuss about either outcome,” says Andrew Béla Jánszky, a Brazilian investment lawyer in the São Paulo office of Shearman & Sterling LLP. “For once, stability is almost a given.”

The hard work has also enabled Brazil—already a leading exporter of iron ore, steel, coffee, soybeans, sugar and beef—to soar in sectors it once only dreamed about. After decades of research and investment, Brazil in 2007 discovered mammoth new oil beds beneath the Atlantic that are expected to double output in the coming years—generating billions of dollars in new revenue annually.

Cleaning House

The results of all these changes have been dramatic. The economic turnaround has pulled millions out of poverty and is creating a thriving middle class. For instance, Brazil’s northeast, long the source of internal migration to more-prosperous cities down south, now outpaces the rest of the country in growth. Companies there are scrambling to train workers, many experienced only as field hands, to build cars, appliances and computer parts.

The country’s promise is such that events that once rattled the faith of local and foreign investors are now taken largely in stride—be it the global financial meltdown or Mr. da Silva’s bear hugs and backslaps with leaders of regimes in Havana, Tehran and Caracas.

But before Brazil can achieve its first-world ambitions, it must tackle big economic, legal and social deficiencies that have hobbled its development.

For one thing, even after sweeping reforms, the government’s role in the economy remains relatively big. Government spending totals more than 20% of the country’s gross domestic product, compared with about 15% in the U.S., 13% in China and 7% in Indonesia, another fast-growing emerging market, according to data compiled by Mosaico Economia Política, a Brazilian consultancy. The government trimmed as many as 150,000 jobs in the 1990s, but since then has taken on twice that number, according to research at Banco Santander, the Spanish bank that is one of Brazil’s biggest foreign investors. Even with greater leeway to spend than ever before, government debt has begun to creep back up.

To help finance the growth in the size of government—and onerous pension and benefit plans—”the trend is likely to be in the direction of higher taxes, lower investments, and, thus, lower long-term growth,” Santander said in the report. The spending growth comes as consumer demand is also surging, spurred on by state lending. That has caused inflation to rear its head once more—forcing the central bank to consider raising interest rates again.

“The government can’t have it all,” warns Eduardo Giannetti da Fonseca, an economist and professor at Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, a business school in São Paulo. “You can’t increase spending, private consumption and invest all at the same time, because something will eventually give.”

Another problem is the restrictive business environment, especially strict labor laws that date back to the 1940s and were originally modeled on the statist policies of Mussolini. Because it costs so much to start companies and hire workers, many entrepreneurs and businesses stay in the black market and pay workers informally. That creates a massive underground economy that, according to a 2005 study by McKinsey & Co., accounts for up to 40% of Brazil’s gross domestic product, takes about half of all urban jobs and drags overall economic growth by as much as 1.5% annually.

The problem is palpable across Brazil, where underground commerce is on open display from city sidewalks to public buses to the festive beaches of Rio de Janeiro. “I’d rather have a real job, but it’s a lot easier to get hired to do something like this,” says Milton, a 28-year-old vendor of pirate software and DVDs in central São Paulo, who declined to give his last name. “There’s plenty of this kind of work to go around.”

Bad Connections

Yet another obstacle to growth is a lack of infrastructure—from roads, railways and bridges to docks, airports and pipelines. Like most everything else in the country, infrastructure investment fluctuated with the booms and busts of the past. Projects were launched when times were flush, only to sit neglected for decades.

Not only is much of it old and in disrepair, but Brazil’s existing infrastructure is too small to handle the volume of people and goods currently using it—let alone accommodate new growth. The government this week is expected to announce the second phase of an ambitious “growth acceleration program” that it launched in 2007. The original plan foresaw infrastructure investments of some $342 billion, but many projects remain mired in bureaucracy. Contas Abertas, a not-for-profit research group that studies public spending, in a study this month said that only 11% of the projects outlined in the plan have been completed, while just over half have yet to be launched.

To casual observers, things will look better as Brazil gears up for hosting soccer’s World Cup in 2014 and the Summer Olympics in Rio de Janeiro in 2016. New roads and airport terminals will be christened along with modernized stadiums and scenic, well-policed promenades. But manufacturers, exporters and shippers—who regularly wait days or weeks for backlogs in ports and customs facilities to clear—know Brazil needs more than just cosmetic changes.

Progress in other areas falls short, too. Crime is still a big problem in most cities and in lawless rural areas where ruthless prospectors, loggers and landowners at times ride roughshod over their neighbors. Those charged with enforcing the law are so underpaid that police routinely look the other way in exchange for a little extra money or commit serious human-rights abuses in efforts to solve problems that overburdened courts rarely can. Using the government’s own statistics, a December report by Human Rights Watch disclosed that police in Rio and São Paulo together killed more than 1,000 people annually in recent years, many of them in execution-style “extrajudicial” killings.

Brazil’s politicians and legislators often run afoul of the law, as well. The country’s Federal Police, its most respected law-enforcement body and the agency charged with fighting corruption, currently has nearly 30,000 active investigations related to public corruption and fraud, according to a recent report. The deposed governor of Brasília, Brazil’s capital, at the moment sits in jail awaiting trial over alleged kickbacks from public construction projects.

Then there’s public education. Brazil has a popular welfare program that helps needy children by paying parents to keep them in school rather than send them out to help put food on the table. But schools themselves remain underfunded and the quality of education remains poor. Outdated university statutes mean that the best colleges, which are public and free, get filled by wealthy students from private high schools, while poorer students, the products of public schools, get stuck paying for second-rate degrees at costly classrooms in strip malls and fly-by-night academies.

Mr. da Silva and his ministers, including Ms. Rousseff, admit that much still needs to be done. The work so far, they insist, has been about laying the groundwork for stability and thereby facilitating investment and growth in the future. Now that popular social programs have helped ease suffering for the critically poor—and disastrous fallout from the financial crisis was averted—the government can begin focusing on ways to ensure it builds upon more solid economic foundations.

“If the past year was about measures to stimulate consumption,” Mr. da Silva said in a television address at the end of December, “now our emphasis is on reinforcing investments and thereby making the wheel of the economy roll in a healthy and sustainable way.”

— Mr. Prada is a staff reporter for The Wall Street Journal in São Paulo. He can be reached at paulo.prada@wsj.com .

Printed in The Wall Street Journal, page R1

Brasil pós-Lula preocupa “pai dos Brics”

Assim como apostou no crescimento do Brasil há oito anos, quando criou a sigla Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e a “opinião convencional” dizia que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva seria um desastre, o chefe de pesquisa econômica do banco Goldman Sachs, Jim O’Neill, diz estar “um pouco preocupado” com o pós-Lula.
“É difícil substituir um líder bem-sucedido. Quando as pessoas me dizem que as próximas eleições não farão diferença, me preocupa, porque provavelmente serão importantes”, diz O’Neill, que chegou ao Rio há oito dias para um misto de férias e trabalho.
O economista britânico participa amanhã de seminário que lançará o Centro de Estudos e Pesquisa dos Bric, uma iniciativa da Prefeitura do Rio e da PUC-RJ. Acadêmicos e autoridades dos quatro países participarão dos debates, de onde sairão recomendações para a segunda cúpula do grupo, em abril, em Brasília.
O”Neill falou à Folha na sexta, um dia depois de se reunir com especialistas brasileiros que se mostraram mais cautelosos em relação ao futuro do Brasil do que ele próprio -que prevê que o crescimento neste ano pode chegar a 7% e que, em 2029, o país ocupará o lugar da Alemanha como quarta maior economia mundial. Abaixo, trechos da entrevista.

FOLHA – Sua estadia no Rio mudou sua visão da economia brasileira?
JIM O’NEILL
– Tenho sentimentos divergentes. Do lado positivo, vi no Rio que é grande a possibilidade de que haja um investimento considerável em infraestrutura, atraindo mais turistas e investidores estrangeiros. Isso me deixa mais entusiasmado com o Brasil, especialmente com a Olimpíada e a Copa. Eu também nunca tinha observado por inteiro a diversidade étnica e cultural brasileira. Isso provavelmente significa que o país pode lidar com a complexidade do mundo melhor do que a maioria dos países do G20 [grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo]. Do lado negativo, e estou influenciado pela cautela de meus interlocutores [brasileiros], diria que não basta falar, você tem que entregar. É importante que sejam de fato feitas coisas para aumentar o investimento em infraestrutura e na economia em geral, para fortalecer o lado da oferta.

FOLHA – O que o senhor ouviu dos economistas e autoridades com quem se encontrou?
O’NEILL
– Eles me pareceram cautelosos, o que pode ser uma coisa boa. Não se levaram pela euforia dos últimos dois anos.

FOLHA – O que os preocupa?
O’NEILL
– O nível insuficiente dos investimentos, gastos governamentais excessivos, o fato de a infraestrutura não estar se desenvolvendo com força.

FOLHA – O senhor compartilha a preocupação com os gastos?
O’NEILL
– Não estou tão preocupado, porque acho que ajudaram o Brasil a enfrentar a recessão mundial. Um dos pontos fortes de Lula é que ele se deu conta de que tinha que incluir todos os setores da sociedade brasileira, e não apenas as classes médias, do contrário não poderia levá-la na direção do progresso maior. Mas concordo com muitos economistas no fato de que esses programas não devem ser permanentes.

FOLHA – Em ano eleitoral, o governo reforçou a defesa de um Estado forte na condução da economia. O que acha disso?
O’NEILL
– Preocupa-me que o governo pense assim a longo prazo. Foi apropriado para ajudar o Brasil a se mover para uma fase melhor, mas não o é em bases permanentes.

FOLHA – Mas a crise pôs em xeque o pensamento liberal. Qual é, na sua opinião, o ponto de equilíbrio?
O’NEILL
– A última década demonstrou que você tem que estar numa posição para ser flexível. Mas há também uma longa história que demonstra que gastos governamentais excessivos não favorecem o crescimento sustentável. Há grande diferença entre gasto e investimento governamental.

FOLHA – E quais seriam as medidas apropriadas para encorajar o aumento do investimento?
O’NEILL
– Primeiro, que o governo tenha objetivos claros em seus gastos e planos para a infraestrutura. Segundo, que continue a criar um ambiente melhor para os negócios privados. Além disso, é preciso ter taxas de juros reais mais baixas. O objetivo deve ser manter a inflação baixa e o superavit primário e estar aberto ao investimento estrangeiro direto.

FOLHA – O sr. tem avaliação pessoal dos candidatos à Presidência?
O’NEILL
– Não, e prefiro não ter. O mais importante é que os candidatos garantam que o sistema de metas de inflação será mantido e que haverá marcos claros para as políticas fiscal e monetária. O Brasil é o melhor dos Brics nessa área hoje.

FOLHA – O senhor teme o período pós-Lula?
O’NEILL
– Preocupo-me um pouco. É como no futebol, é muito difícil substituir um líder bem-sucedido. Preocupa-me que o próximo presidente brasileiro tenha alguma dificuldade inicial. Há oito anos, quando criei a história do Bric, as pessoas diziam que Lula seria um desastre, e a opinião convencional estava errada. Agora, quando as pessoas me dizem que as próximas eleições não farão diferença, preocupa-me, porque provavelmente serão importantes.

FOLHA – A crise fiscal nos chamados Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) pode contaminar o resto do mundo?
O’NEILL
– Não gosto desse acrônimo, é rude demais. Mas estou mais preocupado com a Europa do que com os EUA. A crise demonstrou parte da fragilidade da união monetária. Mas temos que lembrar que a Grécia é apenas 2,5% [da economia] da zona do euro. Portugal é ainda menor. Então é preciso ver isso em perspectiva.

FOLHA – A união monetária está em risco?
O’NEILL
– Não, é um projeto político muito forte e em última instância depende muito da França e da Alemanha, que respondem por 75% da economia da zona. Provavelmente isso terminará com um pacto de estabilidade mais forte em relação à política fiscal, embora um acordo sobre essa questão deva demorar a ocorrer.

FOLHA – É importante o fato de a China ter diminuído suas reservas em títulos americanos?
O’NEILL
– Isso na verdade é bom. Para resolver os desequilíbrios americanos, é preciso um deficit comercial menor, uma taxa de poupança interna maior e menos capital estrangeiro. A China vem vendendo títulos americanos há algum tempo, e acho que isso não tem nenhuma ligação com temas políticos.

FOLHA – Muitos economistas apontam falta de transparência no pacote de estímulo econômico chinês, dizem que os bancos estariam com créditos podres.
O’NEILL
– Não concordo. Acho que a resposta chinesa à crise foi impressionante, e que os bancos chineses têm atuado para apoiar o crescimento.

Fonte: Folha de São Paulo (21/02/2010)

E os brasileiros ainda não foram salvos pela Árca de Nóe de 2012

Depois de quase um mês sem escrever ou publicar algo aqui no blog estou de volta. Foram algumas semanas de trabalho árduo que me mantiveram a distância do meu hobby preferido que é escrever neste blog.

Acabei de voltar do cinema onde fui assistir o filme 2012. O filme se trata do fim do mundo que segundo os Maias ocorreria em 21/12/2012. Novamente neste filme, como em tantos outros americanos, a cavalaria norte-americana salva a humanidade de sua iminente extinção. O que acontece é que um cientista indiano descobre que o núcleo da Terra está se aquecendo em um ritmo acelerado que acaba por provocar vários tsunamis nos mares e deslocar a crosta terreste, uma vez que a “cola” que une as camadas da Terra se desfaz. Os americanos constroem algumas Arcas de Noé que irão levar alguns povos da humanidade a serem salvos após o momento final.

Meu ponto neste filme, é que pela primeira vez assisti um filme americano que parece levar em conta a nova geopolítica de um mundo multipolar, pós Queda do Muro de Berlim, BRICs e G-20. É interessante que inicialmente fala-se dos americanos liderando os países do G-8 rumo a salvação do mundo. Depois os americanos citam alguns novos atores da cena internacional. Os indianos foram aqueles cujo cientistas descobriram os problemas no núcleo da Terra, os chineses são aqueles que constroem as Arcas de Nóe, os russos fazem parte do G-8 e assim ajudam a definir o futuro da humanidade. Quanto aos brasileiros, resta uma citação indireta quando em um momento do filme fala-se das mortes coletivas no Rio de Janeiro. Nos dão até o direito de ter uma versão em português, sem tradução para o inglês, da CNN local. Ainda há uma citação dos cientistas argentinos que ajudam a estudar o aquecimento do núcleo da Terra.

Em resumo, na Arca de Nóe de 2012, não há lugar na “nova humanidade” para os brasileiros. Dentre os membros do atual G-20, só se salvam parte dos povos do G-8, China e Índia. Apesar do grande espaço que a política exterior do Brasil tem ganhado nos últimos anos, esse passo ainda não foi dado nas telas de Hollywood. Será que chegaremos ao mesmo status de nossos colegas do BRIC? Quanto tempo levará para que tenhamos a satisfação de ver os brasileiros fazendo parte das decisões mundiais ainda que na ficção?

 

“Espero que o Brasil puxe a região, como a China fez com a Ásia”

Andrés Oppenheimer, nascido em Buenos Aires em 1951, afirma que há um grande paradoxo entre os discursos e a realidade na América Latina, entre as cúpulas que proclamam a unidade da região e a realidade, na qual alguns países acham mais fácil exportar frangos para a China do que para o país vizinho. Dessa falta de integração surge o nome do novo livro do jornalista argentino, “Los Estados Desunidos de las Américas” (Edaf), que ele lança nesta semana em Madri.

El País: Essa desunião tem remédio?
Andrés Oppenheimer:
Sim, é claro. Mas será preciso rirmos das palhaçadas dos presidentes nessas cúpulas para que percebam o ridículo que estão fazendo. Se a América Latina não se integrar em aspectos concretos não poderá competir na economia global.

El País: O Brasil deve capitanear essa liderança?
Oppenheimer:
Eu tenho esperança de que o Brasil puxe o resto da América Latina como a China fez com a Ásia, porque, embora tenha uma política externa lamentável, de apoio a qualquer ditadura que exista, é um modelo de continuidade econômica e de êxito. O êxito brasileiro é muito simples: não tentar inventar nem mudar a política a cada cinco anos. O grande sucesso de Lula foi continuar as políticas econômicas de Fernando Henrique Cardoso. Por outro lado, há uma corrente de presidentes narcisistas-leninistas que estão fazendo o que Khadafi fez na década de 1970, crendo que a carestia das matérias-primas é um modelo econômico. A verdade é que os países que mais estão reduzindo a pobreza são o Chile e o Brasil, e não os países da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas).

El País: Como acha que o Brasil está administrando a liderança regional?
Oppenheimer:
Creio que está ocupando espaços que o México está deixando vazios. Pensava-se: o Brasil fica com a América do Sul e o México com a América Central. Mas na crise de Honduras, por exemplo, vimos que os protagonistas foram Brasil e Costa Rica.

El País: O que representa a possível reeleição de Álvaro Uribe na Colômbia?
Oppenheimer:
É péssima para a Colômbia, para a América Latina e para Uribe. Inutiliza tudo o que ele construiu, que é combater uma insurreição armada com a democracia. Mas se for fazer a mesma coisa que Chávez, que é mudar a Constituição para se reeleger, não tem qualquer argumento para dizer que é diferente de Chávez. Espero que não faça isso.

El País: Por que o México está perdendo peso na região?
Oppenheimer:
Creio que o presidente Calderón está fazendo coisas boas em muitos sentidos, mas em política externa ficou dormindo. Talvez porque queira se diferenciar de (Vicente) Fox, talvez porque esteja muito consumido em sua luta contra o narcotráfico. Mas, seja como for, está cometendo um erro. Na crise de Honduras, o México não aparece na foto. Hoje, neste mundo globalizado, quem não aparece na foto, quem não tem destaque, perde posições.

El País: Qual é a solução para o golpe em Honduras?
Oppenheimer:
Tudo foi mal feito. Vão chegar a um acordo porque Honduras depende da ajuda externa. Os candidatos presidenciais não vão querer chegar às eleições sabendo que serão repudiados pela comunidade internacional, que vão assumir a Presidência de um país em bancarrota. Sua pressão e a de fora vão forçar que cheguem a um acordo, que tem de ser um governo de união, com representação de Zelaya e com representação do regime de fato.

El País: Com Zelaya na liderança?
Oppenheimer:
Talvez com Zelaya na liderança e com as mãos atadas para que não faça o que queria fazer, que era um golpe a partir de dentro, como os que Chávez faz na Venezuela. O que acontece em Honduras deve ser condenado. A comunidade internacional atuou bem.

Fonte: Jornal El País / tradução UOL

Natura planeja a ampliação de suas atividades fora do país

A Natura quer ampliar sua atuação fora do país e prevê o dobro da participação das operações internacionais no faturamento da empresa em cinco anos. A projeção foi feita ontem pelo vice-presidente de Finanças e Jurídico da Natura, Roberto Pedote, na ocasião da divulgação dos resultados do terceiro trimestre.

No período, as operações internacionais da fabricante de cosméticos resultaram numa receita líquida de R$ 75,8 milhões, um avanço de 43,9% sobre o mesmo período do ano passado, representando 7,18% da receita total, que somou R$ 1,054 bilhão.

De janeiro a setembro, essa participação das vendas no exterior ficou em 7,2%, totalizando R$ 211,4 milhões e um crescimento de 50,8%. Em comparação aos nove primeiros meses de 2008, quando a representatividade internacional era de 5,7%, o resultado mostrou crescimento, “evoluindo de acordo com a expectativa nestas operações”, afirmou a empresa em nota.

A estratégia de internacionalização da empresa é parte de uma nova etapa de planejamento, cujo foco inicial está na América Latina. Neste sentido, a Natura se volta para os países considerados “em consolidação” – Chile, Argentina e Peru – onde registrou R$ 1,7 milhão de lucro líquido e margem Lajida de 7,5% no terceiro trimestre. No mesmo período do ano passado, acumulou prejuízo de R$ 3,4 milhões, e margem Lajida negativa de 2,1%. “Queremos mais ganhos de escala nessas operações”, disse Pedote.

Já na Colômbia e México, países considerados “operações em implantação”, foi registrado um prejuízo líquido de R$ 8,3 milhões e margem Lajida de 40,7% negativos, ante a perda de R$ 9,3 milhões no ano passado e margem Lajida negativa de 82,2%. Esses resultados, segundo o executivo, incluem as operações da Venezuela, encerradas em junho.

Fonte: Jornal Valor Econômico (23/10/2009)